— Amém... — sussurrou Ana Lúcia, a única voz a quebrar o vácuo deixado pela prece desastrosa. Ela abriu os olhos e lançou para o marido um olhar que, se fosse materializado, teria perfurado o crânio dele. — Amém, Jerônimo. Amém.
Fernando não disse nada. Apenas pegou o pão que estava em seu prato e mordeu, mastigando mecanicamente, como se fosse papelão. O olhar fixo em um ponto qualquer da toalha florida.
— Mas e aí, pai? — Vinícius insistiu, limpando a boca com as costas da mão, os olhos brilhando de curiosidade. — O Playstation 5 é bem comum, entra na partilha? Porque se o Murilo vier pra cá, ele não vai querer dividir o quarto comigo se não tiver videogame.
— Olha, meu filho — Jerônimo respondeu, servindo-se de café com a naturalidade de quem discute o clima, ignorando completamente o fato de Fernando estar se encolhendo na cadeira. — Eu acho difícil. A Cíntia é apegada aos bens materiais. Aquela lá conta até os palitos de dente. Mas não se preocupe, se o Fernandinho não conseguir trazer o videogame, a gente compra um dominó pro Murilo. Constrói caráter.
Fernando suspirou fundo, mastigando sua tristeza com margarina.
Foi então que um estrondo veio do andar de baixo. A porta lateral, que dava acesso à escada da casa, bateu com força, fazendo as xícaras tremerem levemente nos pires.
— CHEGUEI, POVO! — O grito feminino subiu pela escadaria, ecoando pelas paredes de azulejo. — Alguém faz um ovo mexido que a mãe tá on, mas tá com fome!
Ana Lúcia revirou os olhos com tanta força que quase viu o próprio cérebro.
— Sete da manhã de uma segunda-feira... — Ana Lúcia murmurou, balançando a cabeça. — E a bonita chegando da rua.
Fernando ergueu os olhos do pão pela primeira vez, a voz rouca e cansada.
— Ela ainda vive nessa vida, mãe? Achei que a Mari tinha dito que ia focar em... sei lá, ser influencer de moda?
— Influencer de copo, só se for — resmungou Vinícius, roubando o queijo do prato do irmão distraído.
Passos rápidos subiram a escada e Mariana Abreu irrompeu na cozinha como um furacão de lantejoulas e perfume adocicado. Ela vestia um top cropped prateado, uma calça jeans que parecia ter sido atacada por uma tesoura e segurava as sandálias de salto alto em uma das mãos, pisando descalça no chão frio. A maquiagem estava 90% intacta, um verdadeiro milagre da cosmética moderna, exceto por um leve borrão no delineado.
— Bom dia, família tradicional brasileira! — Mariana cantou, jogando as sandálias num canto e indo direto abraçar o pai por trás, beijando a careca dele. — Bênção, pai. O senhor tá cheiroso hoje. Vai pra onde, pra missa?
Em vez de repreendê-la pelo horário ou pelas roupas, Jerônimo derreteu-se todo, abrindo um sorriso que faltou pouco para rasgar o rosto.
— Deus te abençoe, minha princesinha. Cuidado com esse pé no chão frio, vai pegar friagem. Se divertiu muito, filha?
— O de sempre, pai. Aquele pagode no Triângulo tava fraco, aí fomos pra casa da Luiza... — Mariana parou no meio da frase. Ela tinha acabado de notar a figura curvada do outro lado da mesa.
Os olhos dela se estreitaram. Ela olhou para Fernando, depois para a mala no canto da sala, e depois para a cara de velório geral (menos a de Vinícius, que parecia estar assistindo a um reality show).
— Ué? — Ela franziu o nariz. — Nando? O que tu tá fazendo aqui a essa hora? A Cíntia te deu alvará de soltura ou você fugiu do cativeiro?
Dessa vez, ninguém tentou disfarçar. O silêncio foi a resposta. Mariana olhou para a mãe, que apenas suspirou e apontou sutilmente para o filho mais velho com a cabeça.
— Ih, mana — Vinícius se adiantou, de boca cheia. — O Nando rodou. A Cíntia pediu o divórcio.
A reação de Mariana foi instantânea e vulcânica.
— EU SABIA! — Ela gritou, batendo a mão na mesa com tanta força que o café de Jerônimo transbordou. — EU SABIA! Aquela jararaca! Aquela cobra de peruca! Eu falei, Fernando! Eu falei no dia do noivado que ela não valia o arroz que comeu na festa!
— Mariana, baixa o tom... — Ana Lúcia pediu, mas sem muita convicção.
— Baixo o tom nada, mãe! — Mariana estava vermelha, a ressaca completamente esquecida diante da adrenalina do ódio. Ela apontou um dedo de unha postiça longa para o irmão. — Fernando, você me desculpe, você é meu irmão e eu te amo, mas você foi cego! Aquela mulher nunca gostou de você, ela gostava do status de "mulher de gerente"! Agora que viu que você não vai virar o Elon Musk amanhã, pulou fora!
— Mari, por favor... — Fernando pediu, a voz sumindo, escondendo o rosto entre as mãos. — Não fala assim dela. Ela é a mãe do meu filho.
— E daí? — Mariana bufou, cruzando os braços e fazendo o top prateado reluzir. — Ser mãe do Murilo é a única qualidade dela. Porque como esposa? Cruz credo. Ela te tratava igual capacho, Fernando! "Ai, Nando, pega isso", "Ai, Nando, essa roupa é velha". Ah, vá se lascar! Se eu cruzar com ela na rua, eu arranco aquele mega hair fio por fio!
— Chega, Mariana! — Jerônimo interveio, mas num tom brando, quase concordando. — Seu irmão já está sofrendo muito. Não vamos chutar cachorro morto. Senta aí e come um pão, você deve estar com o estômago vazio.
Mariana obedeceu, sentando-se bufando ao lado de Fernando. Ela o olhou de lado, a raiva dando lugar àquela proteção feroz de irmã mais nova. Ela passou o braço pelos ombros dele e apertou.
— Tá bom, parei. — Ela disse, mais calma. — Mas ó... ela perdeu, viu? Você é gato, é trabalhador e cozinha bem. O azar é dela. E se ela vier aqui reclamar de pensão, eu solto o cachorro. E olha que a gente nem tem cachorro.
Fernando soltou um riso curto, triste, mas sincero.
— Obrigado, Mari.
— De nada. — Ela pegou o copo de café do Vinícius sem pedir e tomou um gole grande. — Agora me contem... onde ele vai dormir? Porque o quarto dele virou a confecção da Dona Ana e eu não divido meu quarto nem com o Papa.
CONTINUA...

