segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O Amor Chegou Depois - Parte 01





O cheiro de fritura velha misturado com desinfetante de lavanda era a assinatura olfativa do Bar do Abreu nas noites de domingo. Não era um cheiro ruim; para os moradores do Bairro Esperança, era o cheiro do fim de semana terminando.

O estabelecimento não tinha o requinte dos bistrôs da Praia do Canto, mas tinha alma. As paredes ostentavam quadros do Vasco da Gama e fotos antigas de Vitória, intercaladas com calendários de borracharia que Ana Lúcia tentava, sem sucesso, esconder atrás das prateleiras de cachaça.

— Trinta, quarenta, cinquenta... — Jerônimo contava as notas de real sobre o balcão de formica gasta, o bigode franzido em concentração. — É, Ana... O movimento foi fraco hoje. Culpa desse calor. O povo prefere ficar na praia gastando com ambulante do que vir prestigiar o comércio local.

— Deixa de reclamar, Jerônimo. O freezer de sorvete esvaziou — Ana Lúcia rebateu, passando um pano úmido nas mesas de plástico vermelhas empilhadas num canto. Ela parou, colocou a mão nas costas e suspirou. — E a gente já devia ter fechado há meia hora. Minhas varizes estão gritando.

Jerônimo resmungou algo sobre "trabalho digno", mas guardou o dinheiro numa pochete de couro que parecia fazer parte de sua anatomia. Ele mancou até o interruptor, apagando o letreiro luminoso que piscava "BAR E LANCHONETE" na fachada.

— Vamos subir, velha. Amanhã é dia de...

BAM! BAM! BAM!

O som oco de punhos batendo na porta de aço enrolada ecoou pelo salão vazio. Jerônimo travou, o instinto de proteção (e a ranzinzice) ativando imediatamente.

— Tá fechado! — gritou ele, a voz rouca ecoando. — Não adianta bater! A cozinha já lavou tudo! Volta terça-feira!

— Pai... — A voz veio abafada pelo metal, trêmula e inconfundível. — Pai, abre... Sou eu. O Nando.

Ana Lúcia largou o pano de prato no mesmo instante. Os olhos do casal se encontraram. Não era normal Fernando aparecer ali àquela hora. Domingo à noite era sagrado: era o horário que Cíntia exigia que ele revisasse a agenda da semana ou ajudasse Murilo com o dever de casa.

Jerônimo bufou, mas se abaixou com dificuldade, destrancando o cadeado no chão. Com um puxão forte, ele ergueu a porta de aço até a metade.

Fernando não entrou; ele se arrastou para dentro.

Aos trinta anos, Fernando Abreu sempre fora o exemplo de postura. Camisas passadas, cabelo penteado, coluna ereta. Mas o homem que passou por baixo da porta parecia ter sido atropelado por um caminhão emocional. A camisa social estava com os botões errados, os olhos vermelhos e inchados por trás dos óculos embaçados, e ele segurava uma mochila de alça única como se fosse uma âncora.

— Meu filho? — Ana Lúcia correu até ele, segurando seu rosto com as duas mãos. — O que aconteceu? Foi assalto? Bateram o carro? Cadê o Murilo?

Fernando tentou falar, mas o choro veio antes das palavras. Um soluço feio, dolorido, daqueles que a gente segura por horas até não aguentar mais. Ele desabou numa das cadeiras de plástico que a mãe ainda não tinha empilhado.

— A Cíntia... — ele conseguiu dizer, a voz falhando. — Ela pediu o divórcio, mãe. Ela mandou eu sair de casa.

O silêncio que se instalou no Bar do Abreu foi mais pesado que a porta de ferro. Jerônimo, que ainda segurava a porta meio aberta, soltou o metal com força, fazendo um estrondo, e se virou, o rosto vermelho de indignação.

— Como é que é? — Jerônimo bradou, a veia da testa saltando. — Aquela... Aquela ingrata botou meu filho na rua num domingo à noite? Depois de tudo que você fez? Depois de você se matar de estudar pra dar uma vida boa pra ela?

— Jerônimo, cala a boca! — Ana Lúcia cortou, puxando a cabeça de Fernando para o seu ombro, onde o filho chorava como se tivesse oito anos novamente. — Não é hora de gritaria. Nando, meu amor... E o Murilo? Onde está o meu neto?

— Tá dormindo na casa do Pedro, o amiguinho da escola... — Fernando fungou, limpando o nariz na manga da camisa. — A Cíntia disse que era melhor ele não ver a gente brigando. Ela disse que eu sou um "peso morto", pai. Que ela cansou de esperar o futuro chegar.

Jerônimo parecia prestes a explodir ou pegar um taco de beisebol que guardava atrás do balcão, mas viu o estado do filho e sua postura mudou. A raiva deu lugar a uma tristeza profunda. Ele se aproximou e colocou a mão pesada no ombro do filho. Um toque desajeitado, mas firme.

— Você não é peso morto coisa nenhuma — disse Jerônimo, a voz grave. — Você é um Abreu. E Abreu não fica na rua.

Fernando levantou os olhos, a esperança frágil brilhando através das lágrimas.

— Eu não tenho pra onde ir, mãe. O aluguel da casa tá impossível, eu não tenho reserva... Eu só vim porque...

— Você não "veio", você voltou — Ana Lúcia decretou, com aquela autoridade que só as mães possuem. — E vai ficar aqui. Com a gente.

— Mas, mãe... não tem espaço — Fernando olhou para o teto, na direção do sobrado acima do bar. — Vocês transformaram meu quarto no ateliê de costura da senhora. Onde eu vou dormir? Em cima da máquina Singer?

Ana Lúcia enxugou uma lágrima do rosto do filho e sorriu, um sorriso guerreiro.

— A gente empurra a máquina, tira os manequins, joga o Patrick pro sofá se precisar... quer dizer, o Patrick nem está aqui. A gente dá um jeito. Sempre demos. Agora levanta. Jerônimo, pega a mochila dele. Vamos subir. Ninguém dorme com fome e nem sozinho nessa família.

Enquanto Jerônimo trancava o bar definitivamente naquela noite, Fernando olhou para as paredes familiares, para o cheiro de fritura e para os pais. O amor tinha acabado lá fora, na casa chique que ele tentava manter, mas ali, no Bairro Esperança, entre engradados de cerveja e mesas de plástico, ele sabia que nunca faltaria.

Mas ele mal sabia que o quarto de costura seria o menor dos seus problemas.

CONTINUA...

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