Patrick fechou a porta do quarto de Vinícius e encostou as costas na madeira, suando frio. O celular queimava em sua mão. Ele respirou fundo três vezes, ensaiou sua melhor voz de "executivo no comando" e apertou o botão de chamar.
— Fala, caloteiro. — A voz do outro lado não tinha nada de corporativa. Era Breno, o intermediário do agiota da Zona Oeste.
— Breno, meu grande parceiro! — Patrick forçou uma simpatia estridente. — Que calote o quê, rapaz? É apenas um desalinhamento temporário de fluxo de caixa. O sistema Swift internacional travou a remessa de Tóquio. Burocracia bancária, você sabe como é o compliance.
— Patrick, o chefe não quer saber de Tóquio. Ele quer os cinco contos. Hoje. Ou eu ligo pro fixo que tá no teu cadastro. Bar do Abreu, né?
Patrick sentiu o estômago despencar até o joelho. Se Jerônimo descobrisse que o filho "milionário" devia dinheiro para agiotas, o infarto era certo. E depois do infarto, a surra.
— Não! Pelo amor de Deus, Breno, não liga pro meu pai. O velho é cardíaco. — A máscara caiu por um segundo. — Olha só, me dá até o fim de semana. Sábado! Sábado eu líquido tudo. Juros, multa, correção monetária... Eu pago o dobro do atraso!
Houve um silêncio tenso na linha. Patrick ouvia a própria respiração.
— Sábado, Patrick. Meio-dia. Se não cair o Pix, eu não vou ligar. Eu vou aí tomar uma cerveja com teu pai.
A chamada encerrou. Patrick escorregou pela porta até sentar no chão, trêmulo. Sábado. Ele tinha quatro dias para arrumar cinco mil reais. Ou pelo menos metade para acalmar a fera.
A maçaneta girou nas costas dele, empurrando-o para frente.
Patrick deu um pulo, guardando o celular no bolso num reflexo ninja. Vinícius entrou no quarto, a mochila da escola pendurada num ombro só, fones de ouvido no pescoço.
— Eita — Vinícius parou, olhando para o irmão ofegante no meio do quarto. — Tá fazendo yoga na porta, Patrick?
Patrick ajeitou a camisa, tentando recuperar a dignidade.
— Alongamento, Vinícius. Prática comum entre CEOs para oxigenar o cérebro antes de tomadas de decisão críticas.
Vinícius jogou a mochila na cama e ligou o PC. O barulho das ventoinhas do computador encheu o quarto.
— Sei... — O caçula sentou na cadeira gamer e girou para encarar Patrick. — E a "máfia japonesa" lá? Deu prazo ou vão cortar seu dedo mindinho?
Patrick congelou. O sorriso de Vinícius era indecifrável. Ele tinha ouvido a conversa? Ou estava apenas zoando com a desculpa de Tóquio que Patrick dera no café da manhã?
— Hahaha, você tem uma imaginação fértil, garoto — Patrick riu, nervoso, indo para a porta. — Vou resolver meus assets. Fui.
Ele saiu do quarto voando, com a pulga atrás da orelha do tamanho de um elefante.
No corredor, Fernando estava terminando de ajeitar a gravata em frente ao espelho, a mochila nas costas.
— Nando! — Patrick o interceptou, bloqueando a passagem. — Rapidinho, uma oportunidade de investimento relâmpago surgiu. Coisa de day trade. Se você me arrumar, digamos, dois mil reais agora, eu te devolvo quatro mil no sábado. Dobro o capital!
Fernando olhou para o irmão com olhos fundos de olheiras. Ele abriu a carteira de couro sintético e a virou de cabeça para baixo. Caiu uma nota fiscal de farmácia e uma moeda de cinquenta centavos.
— Patrick, eu não tenho dinheiro nem pra comprar um Halls. O cartão de crédito ficou com a Cíntia. Eu tô indo pro trabalho com o vale-transporte que a empresa recarregou.
Patrick murchou.
— Nem uma reserva de emergência? Debaixo do colchão?
— A minha reserva de emergência era meu casamento. E ele faliu. Tchau, Patrick.
Fernando saiu. Patrick bufou.
Restava a fonte original = O Banco Central dos Abreu.
Ele desceu as escadas. Eram nove e meia da manhã. O Bar do Abreu já estava com as portas abertas. Jerônimo passava um pano úmido no balcão, assobiando um samba antigo.
— Pai! — Patrick se aproximou, debruçando-se no balcão com um sorriso de vendedor de carro usado. — O bar tá lindo hoje. Sabe o que deixaria ele mais moderno? Um sistema de gestão financeira automatizado. Eu posso implementar pra você. Só preciso de um adiantamento de... consultoria.
Jerônimo parou de passar o pano e olhou para o filho por cima dos óculos de leitura.
— Adiantamento? Ué, você não tá rico?
— É questão de liquidez, pai. Meu dinheiro tá imobilizado em commodities. Soja, boi gordo...
— Pois o meu dinheiro tá imobilizado aqui ó — Jerônimo deu dois tapas na gaveta do caixa. — Em boletos de cerveja e conta de luz. E daqui ele só sai pra pagar fornecedor. Se tá precisando de trocado, vai no banco, ué. Você não é cliente VIP?
Patrick engoliu em seco. Plano A, B e C falharam.
Nesse momento, uma sombra cobriu a entrada ensolarada do bar.
— Bom dia, Seu Jerônimo! — A voz era animada.
Jadson entrou, tirando um boné surrado da cabeça. Ele vestia uma camiseta velha de propaganda política, calça jeans suja de tinta e as mesmas botas gastas. Mas o sorriso no rosto era novo.
— Bom dia, rapaz! — Jerônimo saudou. — Tá com a cara boa. Ganhou na loteria?
— Melhor que isso. Consegui trabalho! — Jadson anunciou, orgulhoso. — Tem uma reforma grande acontecendo num prédio ali na rua de baixo. O mestre de obras tava precisando de pedreiro com experiência. Começo hoje mesmo, depois do almoço. Carteira assinada e tudo.
— Olha aí! Isso que é notícia boa! — Jerônimo bateu palma. — O primeiro café é por conta da casa pra comemorar.
Enquanto Jerônimo virava para a máquina de café, Patrick sentiu uma lâmpada acender sobre sua cabeça. Uma lâmpada meio quebrada e que piscava "ALERTA", mas era a única luz que ele tinha.
Ele deu a volta no balcão, pegou Jadson pelo braço e o arrastou para um canto afastado, perto da máquina de música desligada.
— Parabéns, Jadson! — Patrick sussurrou, olhando para garantir que Jerônimo não ouvia. — Obra grande, é? Muita gente?
— É, um predinho de três andares. Tão precisando de gente, o prazo tá apertado.
Patrick respirou fundo. Engoliu o orgulho, engoliu a pose de milionário e sussurrou:
— Eles tão precisando de... ajudante? Servente? Carregador de saco de cimento? Qualquer coisa?
Jadson franziu a testa, confuso.
— Ué... Devem estar. Sempre precisa de servente. Mas... pra quê você quer saber? É pra algum amigo seu?
Patrick olhou para os lados, desesperado.
— É pra mim, Jadson!
Jadson soltou uma risada alta, achando que era piada. Patrick tapou a boca dele com a mão.
— Shhh! Fala baixo, criatura! — Patrick sibilou. — Olha, é o seguinte... Eu tô passando por um lockdown financeiro momentâneo. Meus bens estão congelados por uma... auditoria da Receita Federal. Coisa de gente grande. Eu preciso de dinheiro vivo até sábado.
Jadson tirou a mão de Patrick da sua boca, olhando para o "amigo" com incredulidade.
— Você? O investidor internacional? Quer virar servente de pedreiro? Patrick, isso é trabalho pesado. Tem que bater massa, carregar tijolo no sol... Suas mãos aí, ó... parecem de pianista.
— Eu faço Crossfit! — Patrick mentiu (ele nunca tinha entrado numa academia). — Eu aguento! Jadson, por favor. Você me deve essa. Eu te trouxe pro Bairro Esperança, eu te apresentei o melhor X-Tudo da cidade... Me arruma essa vaga.
Jadson coçou a barba por fazer, avaliando o sujeito à sua frente. Patrick parecia prestes a chorar.
— Tá bom, Patrick. O mestre de obras disse que pagava a diária no fim do dia se o cara fosse bom. Cem reais o dia.
— Cem reais?! — Patrick fez uma conta rápida. Quatro dias, quatrocentos reais. Não pagava a dívida, mas pagava os juros para não morrer. — Eu topo!
— Mas ó... — Jadson apontou o dedo. — Lá não tem essa de "mindset" não, viu? É pá, picareta e suor.
— Fechado. — Patrick apertou a mão calejada de Jadson. — Só tem um detalhe: meu pai não pode saber. Nem minha mãe. Nem ninguém. Pra eles, eu estou indo fazer uma consultoria de campo in loco sobre o mercado imobiliário.
Jadson balançou a cabeça, rindo.
— "Consultoria de campo"... Tá bom, Patrick. Esteja lá à uma hora. E troca essa camisa de marca, senão ela vai ficar cheia de cimento.
Patrick assentiu, sentindo um misto de alívio e terror. Ele tinha conseguido um emprego. Agora só precisava sobreviver a ele.

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