O portão de tapumes da obra "Solar das Acácias" não foi projetado para entradas dramáticas, mas Mariana Abreu não se importava com arquitetura. Ela empurrou a chapa de madeira compensada com o ombro, fazendo-a bater contra a parede com um estrondo, e entrou no pátio de terra batida como se fosse a SWAT invadindo um cativeiro.
Jonas vinha logo atrás, tropeçando nos próprios pés e sussurrando pedidos de desculpas para ninguém em particular.
— ONDE ELE ESTÁ?! — gritou Mariana, os óculos escuros na ponta do nariz e o dedo em riste.
Os pedreiros que estavam no térreo pararam de peneirar areia. A betoneira continuou girando, indiferente ao barraco, mas o silêncio humano foi imediato.
Jadson, que estava terminando de ajudar Patrick a descer do terceiro andar (e a se recompor do banho de água fria), olhou para a entrada. Ele segurava o balde azul vazio numa mão e, com a outra, sustentava Patrick pelo braço.
Para Mariana, aquela imagem foi a confirmação do crime: o algoz segurando a arma (o balde) e a vítima (Patrick) trêmula e molhada, incapaz de ficar em pé sozinha.
— SOLTA ELE, SEU MONSTRO! — Mariana avançou pelo terreno irregular, desviando de pilhas de tijolos com uma agilidade impressionante para quem usava anabelas.
— Mariana? — Patrick guinchou. A cor fugiu do rosto dele tão rápido que ele ficou quase transparente. Se ela descobrisse que ele estava trabalhando ali, a vergonha seria mortal. Ele olhou para Jadson com olhos de pânico absoluto. Faz alguma coisa!, implorava o olhar dele.
Jadson soltou o braço de Patrick e deu um passo à frente, protegendo o "segredo" (e o amigo) com o corpo.
— Calma aí, Mariana! — disse Jadson, erguendo as mãos (uma delas ainda com o balde). — O que deu em você?
— O que deu em mim? — Ela parou a dois metros dele, fulminando-o com o olhar. — O que deu em você! Eu vi tudo, Jadson! Eu vi lá de fora! Você jogando água nele, gritando, forçando ele a ficar nesse sol... Isso é tortura! É cárcere privado!
Jonas alcançou a amiga, ofegante.
— Mari, menos... Ele não tá amarrado...
— Cala a boca, Jonas! — Ela voltou-se para Jadson. — Quanto ele te deve? Hein? É dívida de jogo? É agiotagem? Fala logo o valor que a gente dá um jeito, mas você não vai transformar meu irmão em escravo!
Jadson piscou, processando a torrente de acusações absurdas. Escravo? Agiotagem? Ele olhou para o balde na sua mão e depois para Patrick, que estava encolhido atrás de uma coluna, tremendo de frio e medo. A vontade de rir foi grande, mas a situação exigia seriedade.
— Mariana, você tá assistindo muita série policial — disse Jadson, com calma. — Ninguém tá torturando ninguém. Eu joguei água nele porque ele passou mal.
— Passou mal? — Ela cruzou os braços, cética. — E o que ele estava fazendo aqui, pra começar? O Patrick tem alergia a poeira e a trabalho braçal!
Patrick, percebendo que precisava agir, saiu de trás da coluna. Ele ajeitou a camisa do avesso molhada colada ao corpo e tentou assumir sua postura de executivo, o que era difícil parecendo um pinto molhado.
— É verdade, Mari! — A voz de Patrick saiu aguda. — Eu estava... eu estava fazendo uma due diligence!
— Uma o quê? — Mariana e Jonas perguntaram juntos.
— Uma inspeção técnica! — Patrick improvisou, gesticulando freneticamente. — O Jadson me convidou para avaliar o potencial de valorização do imóvel. Eu vim fazer uma análise de campo. Mas o sol... o sol de Vitória não está alinhado com o meu metabolismo. Tive uma queda de pressão. Um blackout momentâneo.
Mariana olhou para o irmão. A história era a cara dele. Mas havia furos.
— Inspeção técnica? — Ela apontou para os pés dele. — Com as botas velhas de pescaria do papai? Desde quando consultor usa bota furada?
Patrick olhou para os próprios pés.
— É... estilo, Mariana. Workwear vintage. É tendência em Nova York. Você não entenderia.
— E o Jadson estava gritando com você por quê? — Ela insistiu, virando-se para o "ogro".
— Eu não estava gritando — defendeu-se Jadson, entrando na mentira para salvar a pele do cunhado. — Eu estava... motivando. Dizendo pra ele não desmaiar. "Fica firme, Patrick!", foi o que eu disse. E joguei a água pra baixar a temperatura dele. Foi primeiros socorros, princesa. Não tortura.
Mariana mordeu o lábio inferior. A explicação fazia sentido? Fazia. O Patrick era fraco para calor? Sim. O Jadson parecia um torturador? Olhando bem agora, ele parecia apenas um cara sujo de cimento segurando um balde com cara de "que saco".
Mas o orgulho dela não permitia recuar totalmente.
— Duvido — murmurou ela. — Tem coisa aí.
Foi então que uma voz rouca e poderosa trovejou do alto do terceiro andar.
— QUE PALHAÇADA É ESSA AQUI NO MEU CANTEIRO?!
Todos olharam para cima. O Bigode, mestre de obras, estava debruçado no parapeito, vermelho de raiva.
— Quem deixou entrar visita sem capacete? — berrou Bigode. — Isso aqui é área de risco, droga! Se cair um tijolo na cabeça dessa loira aí, quem vai preso sou eu!
Jadson fez uma careta.
— Desculpa, Seu Bigode! Eles já estão saindo! Foi um engano!
— Engano vai ser a minha bota na bund@ de vocês! — continuou Bigode. — Tira esse povo daí agora, Jadson! E você, moleque da sacola no pé... — Bigode apontou para Patrick. — Se já melhorou do "passamento", volta pro trabalho ou vaza também!
Mariana franziu a testa.
— "Volta pro trabalho"? — Ela repetiu. — O Patrick trabalha aqui?
Patrick congelou. Jadson foi mais rápido.
— O Bigode chama a inspeção de trabalho! É o jeito dele! — Jadson agarrou Mariana pelos ombros e começou a girá-la na direção da saída. — Vamos, Mari. Você ouviu o homem. É perigoso. Cai tijolo, cai balde... O Jonas vai te levar pra casa.
— Me solta! Eu sei andar! — Mariana se desvencilhou, mas aceitou a retirada estratégica. O mestre de obras parecia pronto para descer e resolver na base do grito.
Ela olhou para Patrick uma última vez.
— Você vem, Patrick?
— Eu... eu preciso terminar o relatório! — Patrick gritou, recuando para perto da areia. — Vou ficar mais um pouco pra coletar dados! O Jadson cuida de mim!
— É, a gente cuida — confirmou Jonas, puxando Mariana pelo braço. — Vamos, Mari. Antes que o Bigode desça. Minha pressão tá caindo também.
Mariana permitiu ser arrastada para fora, mas não sem antes lançar um último olhar fulminante para Jadson.
— Eu estou de olho em você, Jadson Meira. Essa história de "inspeção" não me desceu.
— Pode deixar, fiscal. — Jadson sorriu, acenando com o balde. — Vai pela sombra.
Assim que Jonas e Mariana sumiram pelo portão e o carro arrancou cantando pneu, Jadson soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Patrick escorregou pela parede até sentar no chão de novo, colocando a mão no peito.
— Quase... — sussurrou Patrick. — Quase que a casa cai. Literalmente.
— Patrick, tu tem sorte que tua irmã é doida — disse Jadson, estendendo a mão para ajudá-lo a levantar. — Se ela fosse um pouco mais calma, tinha percebido que tu tá cheirando a argamassa.
— Ela desconfiou, Jadson. — Patrick levantou, gemendo de dor. — Ela é um pitbull de salto alto. Ela não vai largar o osso.
— Problema seu. — Jadson pegou a pá e entregou para o "consultor". — Agora, como o Bigode disse... o show acabou. Volta pro trabalho, Cinderela. A laje não vai se encher sozinha.
Patrick olhou para a pá, olhou para o portão por onde a irmã saíra e suspirou.
— Pelo menos ganhei um banho — resmungou ele, voltando a mancar em direção à montanha de areia.



