A casa de muros brancos e portão de alumínio, que Fernando passara cinco anos reformando nos finais de semana, parecia agora uma fortaleza inexpugnável. Ele parou na calçada, enxugando o suor frio que escorria pelas têmporas. O sol da tarde castigava, mas o frio vinha de dentro, do buraco que o cheque especial tinha acabado de cavar em sua conta bancária.
Ele tocou a campainha. O som ecoou lá dentro, familiar e, ao mesmo tempo, estranho. Ele não tinha mais a chave.
Demorou dois minutos para Cíntia abrir. Ela apareceu no portão social, segurando o celular no ouvido com o ombro enquanto retocava o batom. Ela usava um vestido novo, estampado, que Fernando nunca tinha visto.
— ...pois é, amiga, um calor do cão e eu sem ar-condicionado. Um absurdo. — Ela desligou na cara da amiga e olhou para Fernando com impaciência. — Demorou, hein? O técnico da EDP quase levou o medidor embora.
— Eu vim de ônibus, Cíntia. — Fernando respondeu, a voz fraca. — Onde está o aviso de corte?
— Tá lá na mesa. Entra logo, não deixa o ar quente entrar... quer dizer, o pouco de fresco que restou.
Fernando entrou na sala. Estava tudo impecavelmente limpo, mas havia sacolas de compras sobre o sofá. Sacolas de uma loja de cosméticos caros do Shopping Vitória e uma caixa de sapatos de marca.
Ele pegou a conta de luz sobre a mesa. Vencida há vinte dias. O valor era alto, fruto do ar-condicionado que Cíntia não desligava nunca.
— Cíntia... — Fernando olhou para ela, segurando o papel. — Eu te mandei o dinheiro dessa conta no dia do meu pagamento. Eu depositei na sua conta pessoal. Onde foi parar o dinheiro?
Cíntia bufou, jogando o cabelo (recém hidratado) para trás.
— Ai, Fernando, não começa com a auditoria. O dinheiro "foi". Sabe como as coisas estão caras? O mercado, a farmácia... E eu precisava de uns produtos. Meu cabelo estava caindo de estresse! Você tem noção do estresse que é passar por um divórcio?
— Você gastou o dinheiro da luz em creme de cabelo? — Fernando perguntou, incrédulo. — E agora me liga no trabalho, me faz sair correndo, ameaçando sujar o nome do meu pai, porque você priorizou o salão?
— Não é "salão", é autocuidado! — Ela rebateu, agressiva. — E para de drama. Você pagou ou não pagou?
Fernando tirou o comprovante de pagamento do bolso. Ele tinha parado numa lotérica no caminho e usado o limite do cheque especial, aquele dinheiro que o banco empresta a juros criminosos.
— Paguei. — Ele colocou o comprovante na mesa, ao lado das sacolas de compras. — Usei o dinheiro que eu não tinha. O dinheiro que ia servir pra eu comprar uma cama, já que estou dormindo no chão.
Cíntia pegou o comprovante e conferiu, sem demonstrar um pingo de remorso.
— Ótimo. Pelo menos uma coisa você resolveu direito. — Ela caminhou até a porta e a abriu, num convite explícito para ele sair. — Agora pode ir. Eu tenho que me arrumar, vou sair com as meninas pra desparecer. Tenta não atrasar a pensão mês que vem, tá? O Murilo precisa de estabilidade.
Fernando olhou para a mulher com quem dividira a vida. Não havia gratidão, não havia parceria, não havia nem humanidade. Apenas um ego inflado e frio.
— O Murilo precisa de mãe, Cíntia. Não de uma dondoca.
— Sai da minha casa, Fernando.
Ele saiu. O portão bateu às suas costas com um som metálico definitivo. Fernando ficou na calçada, sozinho, com a conta bancária no vermelho e o coração roxo de pancada.
Meia hora depois, no Bar do Abreu.
Mariana e Jonas estavam sentados numa mesa de canto, ainda recuperando o fôlego da "missão" desastrosa na obra.
— Eu ainda acho que tem coisa errada — insistia Mariana, tomando um copo de água com açúcar que Ana Lúcia preparara. — Ninguém faz "inspeção técnica" de bota velha, Jonas. O Patrick tava tremendo!
— Mari, aceita. O Patrick é mole. E o Jadson... bem, o Jadson só tava trabalhando. A gente que pagou mico. — Jonas tentava ser a voz da razão, mas Mariana estava irredutível.
Foi quando a sombra de Fernando apareceu na entrada.
Ele não entrou; ele se arrastou. A gravata estava frouxa, os ombros caídos, e os olhos vermelhos por trás dos óculos denunciavam que ele tinha chorado no caminho. Ele parecia ter envelhecido dez anos em uma tarde.
— Fernando? — Mariana levantou num pulo, esquecendo instantaneamente o Jadson, a obra e as teorias da conspiração.
Ana Lúcia, que estava na cozinha, sentiu o "sensor de mãe" apitar e correu para o salão.
— Meu filho! — Ana contornou o balcão. — O que foi? Aconteceu alguma coisa com o Murilo?
Fernando desabou numa cadeira, cobrindo o rosto com as mãos.
— Não, mãe. O Murilo tá bem. — A voz dele saiu abafada. — Foi a Cíntia.
— O que aquela jararaca fez? — Mariana perguntou, cerrando os punhos, a raiva borbulhando instantaneamente. Jonas colocou a mão no ombro dela, pedindo calma.
— Ela disse que iam cortar a luz... — Fernando contou, entre suspiros. — Me fez sair do trabalho correndo. Disse que ia sujar o nome do pai. Quando cheguei lá... ela tinha gastado o dinheiro da conta em compras. Sapatos. Cremes. E eu... eu tive que pagar com o cheque especial.
Um silêncio pesado caiu sobre o bar. Jerônimo, que ouvia do caixa, tirou os óculos e limpou uma lágrima de raiva.
— Que mulherzinha... — sussurrou Jerônimo.
— E ela nem disse obrigado — continuou Fernando, levantando o rosto molhado. — Ela me botou pra fora como se eu fosse um cachorro. Eu tô falido, gente. Eu trabalho, trabalho, trabalho e não tenho nada. Nem casa, nem dinheiro, nem dignidade.
Mariana sentiu um nó na garganta. Ela olhou para o irmão, devastado por uma mulher egoísta e cruel.
De repente, sua "investigação" sobre o Jadson pareceu ridícula. Ela estava brincando de detetive, perseguindo um cara que trabalhava na obra e que, no máximo, tinha dado um banho de água fria no Patrick, enquanto o verdadeiro monstro estava lá, vivendo na casa do irmão, gastando o dinheiro dele e destruindo sua autoestima.
Mariana abraçou Fernando. Um abraço forte, protetor, sem deboche, sem piadas.
— Você tem a gente, Nando. — Ela sussurrou no ouvido dele. — E a dignidade não tá na conta bancária, tá no caráter. Você é mil vezes mais homem que ela é mulher.
— Jonas, pega uma Coca-Cola pro meu filho — pediu Ana Lúcia, com a voz embargada, passando a mão no cabelo de Fernando. — Vamos esquecer isso por hoje. O dinheiro a gente recupera. A gente vende mais lanche, faz hora extra... O importante é que você tá aqui.
Jonas trouxe o refrigerante e serviu o amigo.
— Força, Nando. O mundo dá voltas. Hoje ela tá por cima, gastando o que não tem. Amanhã a conta chega. E não é a de luz.
Fernando bebeu o refrigerante, sentindo o calor da família (e de Jonas, que era praticamente família) formar uma barreira contra o frio que sentia.
— Obrigado, gente. — Ele sorriu, triste. — Desculpa trazer problema pra cá.
— Problema dividido é problema diminuído — disse Jerônimo.
Mariana voltou para sua cadeira, pensativa. Ela olhou para Jonas.
— Eu sou uma idiota, né? — sussurrou ela.
— Por quê? — Jonas perguntou.
— Fico perdendo tempo desconfiando do Jadson, perseguindo o Patrick... enquanto o Nando tá passando por isso. Eu devia focar minha energia em ajudar meu irmão de verdade.
— E como você vai fazer isso? — perguntou Jonas.
Os olhos de Mariana brilharam com uma nova determinação. Não a determinação louca da "007", mas algo mais frio e calculista.
— A Cíntia gosta de gastar, né? Gosta de aparências? — Mariana olhou para o nada, arquitetando. — Pois então. Se ela quer guerra financeira, ela vai ter. Mas primeiro... eu preciso garantir que o Patrick não esteja fazendo nenhuma besteira que piore a situação.
CONTINUA...



