sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 21

 


O portão de tapumes da obra "Solar das Acácias" não foi projetado para entradas dramáticas, mas Mariana Abreu não se importava com arquitetura. Ela empurrou a chapa de madeira compensada com o ombro, fazendo-a bater contra a parede com um estrondo, e entrou no pátio de terra batida como se fosse a SWAT invadindo um cativeiro.

Jonas vinha logo atrás, tropeçando nos próprios pés e sussurrando pedidos de desculpas para ninguém em particular.

— ONDE ELE ESTÁ?! — gritou Mariana, os óculos escuros na ponta do nariz e o dedo em riste.

Os pedreiros que estavam no térreo pararam de peneirar areia. A betoneira continuou girando, indiferente ao barraco, mas o silêncio humano foi imediato.

Jadson, que estava terminando de ajudar Patrick a descer do terceiro andar (e a se recompor do banho de água fria), olhou para a entrada. Ele segurava o balde azul vazio numa mão e, com a outra, sustentava Patrick pelo braço.

Para Mariana, aquela imagem foi a confirmação do crime: o algoz segurando a arma (o balde) e a vítima (Patrick) trêmula e molhada, incapaz de ficar em pé sozinha.

— SOLTA ELE, SEU MONSTRO! — Mariana avançou pelo terreno irregular, desviando de pilhas de tijolos com uma agilidade impressionante para quem usava anabelas.

— Mariana? — Patrick guinchou. A cor fugiu do rosto dele tão rápido que ele ficou quase transparente. Se ela descobrisse que ele estava trabalhando ali, a vergonha seria mortal. Ele olhou para Jadson com olhos de pânico absoluto. Faz alguma coisa!, implorava o olhar dele.

Jadson soltou o braço de Patrick e deu um passo à frente, protegendo o "segredo" (e o amigo) com o corpo.

— Calma aí, Mariana! — disse Jadson, erguendo as mãos (uma delas ainda com o balde). — O que deu em você?

— O que deu em mim? — Ela parou a dois metros dele, fulminando-o com o olhar. — O que deu em você! Eu vi tudo, Jadson! Eu vi lá de fora! Você jogando água nele, gritando, forçando ele a ficar nesse sol... Isso é tortura! É cárcere privado!

Jonas alcançou a amiga, ofegante.

— Mari, menos... Ele não tá amarrado...

— Cala a boca, Jonas! — Ela voltou-se para Jadson. — Quanto ele te deve? Hein? É dívida de jogo? É agiotagem? Fala logo o valor que a gente dá um jeito, mas você não vai transformar meu irmão em escravo!

Jadson piscou, processando a torrente de acusações absurdas. Escravo? Agiotagem? Ele olhou para o balde na sua mão e depois para Patrick, que estava encolhido atrás de uma coluna, tremendo de frio e medo. A vontade de rir foi grande, mas a situação exigia seriedade.

— Mariana, você tá assistindo muita série policial — disse Jadson, com calma. — Ninguém tá torturando ninguém. Eu joguei água nele porque ele passou mal.

— Passou mal? — Ela cruzou os braços, cética. — E o que ele estava fazendo aqui, pra começar? O Patrick tem alergia a poeira e a trabalho braçal!

Patrick, percebendo que precisava agir, saiu de trás da coluna. Ele ajeitou a camisa do avesso molhada colada ao corpo e tentou assumir sua postura de executivo, o que era difícil parecendo um pinto molhado.

— É verdade, Mari! — A voz de Patrick saiu aguda. — Eu estava... eu estava fazendo uma due diligence!

— Uma o quê? — Mariana e Jonas perguntaram juntos.

— Uma inspeção técnica! — Patrick improvisou, gesticulando freneticamente. — O Jadson me convidou para avaliar o potencial de valorização do imóvel. Eu vim fazer uma análise de campo. Mas o sol... o sol de Vitória não está alinhado com o meu metabolismo. Tive uma queda de pressão. Um blackout momentâneo.

Mariana olhou para o irmão. A história era a cara dele. Mas havia furos.

— Inspeção técnica? — Ela apontou para os pés dele. — Com as botas velhas de pescaria do papai? Desde quando consultor usa bota furada?

Patrick olhou para os próprios pés.

— É... estilo, Mariana. Workwear vintage. É tendência em Nova York. Você não entenderia.

— E o Jadson estava gritando com você por quê? — Ela insistiu, virando-se para o "ogro".

— Eu não estava gritando — defendeu-se Jadson, entrando na mentira para salvar a pele do cunhado. — Eu estava... motivando. Dizendo pra ele não desmaiar. "Fica firme, Patrick!", foi o que eu disse. E joguei a água pra baixar a temperatura dele. Foi primeiros socorros, princesa. Não tortura.

Mariana mordeu o lábio inferior. A explicação fazia sentido? Fazia. O Patrick era fraco para calor? Sim. O Jadson parecia um torturador? Olhando bem agora, ele parecia apenas um cara sujo de cimento segurando um balde com cara de "que saco".

Mas o orgulho dela não permitia recuar totalmente.

— Duvido — murmurou ela. — Tem coisa aí.

Foi então que uma voz rouca e poderosa trovejou do alto do terceiro andar.

— QUE PALHAÇADA É ESSA AQUI NO MEU CANTEIRO?!

Todos olharam para cima. O Bigode, mestre de obras, estava debruçado no parapeito, vermelho de raiva.

— Quem deixou entrar visita sem capacete? — berrou Bigode. — Isso aqui é área de risco, droga! Se cair um tijolo na cabeça dessa loira aí, quem vai preso sou eu!

Jadson fez uma careta.

— Desculpa, Seu Bigode! Eles já estão saindo! Foi um engano!

— Engano vai ser a minha bota na bund@ de vocês! — continuou Bigode. — Tira esse povo daí agora, Jadson! E você, moleque da sacola no pé... — Bigode apontou para Patrick. — Se já melhorou do "passamento", volta pro trabalho ou vaza também!

Mariana franziu a testa.

— "Volta pro trabalho"? — Ela repetiu. — O Patrick trabalha aqui?

Patrick congelou. Jadson foi mais rápido.

— O Bigode chama a inspeção de trabalho! É o jeito dele! — Jadson agarrou Mariana pelos ombros e começou a girá-la na direção da saída. — Vamos, Mari. Você ouviu o homem. É perigoso. Cai tijolo, cai balde... O Jonas vai te levar pra casa.

— Me solta! Eu sei andar! — Mariana se desvencilhou, mas aceitou a retirada estratégica. O mestre de obras parecia pronto para descer e resolver na base do grito.

Ela olhou para Patrick uma última vez.

— Você vem, Patrick?

— Eu... eu preciso terminar o relatório! — Patrick gritou, recuando para perto da areia. — Vou ficar mais um pouco pra coletar dados! O Jadson cuida de mim!

— É, a gente cuida — confirmou Jonas, puxando Mariana pelo braço. — Vamos, Mari. Antes que o Bigode desça. Minha pressão tá caindo também.

Mariana permitiu ser arrastada para fora, mas não sem antes lançar um último olhar fulminante para Jadson.

— Eu estou de olho em você, Jadson Meira. Essa história de "inspeção" não me desceu.

— Pode deixar, fiscal. — Jadson sorriu, acenando com o balde. — Vai pela sombra.

Assim que Jonas e Mariana sumiram pelo portão e o carro arrancou cantando pneu, Jadson soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Patrick escorregou pela parede até sentar no chão de novo, colocando a mão no peito.

— Quase... — sussurrou Patrick. — Quase que a casa cai. Literalmente.

— Patrick, tu tem sorte que tua irmã é doida — disse Jadson, estendendo a mão para ajudá-lo a levantar. — Se ela fosse um pouco mais calma, tinha percebido que tu tá cheirando a argamassa.

— Ela desconfiou, Jadson. — Patrick levantou, gemendo de dor. — Ela é um pitbull de salto alto. Ela não vai largar o osso.

— Problema seu. — Jadson pegou a pá e entregou para o "consultor". — Agora, como o Bigode disse... o show acabou. Volta pro trabalho, Cinderela. A laje não vai se encher sozinha.

Patrick olhou para a pá, olhou para o portão por onde a irmã saíra e suspirou.

— Pelo menos ganhei um banho — resmungou ele, voltando a mancar em direção à montanha de areia.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 20

 


O movimento no Bar do Abreu estava naquele ponto morto típico do meio da tarde. O sol baixava, as moscas zumbiam mais devagar e apenas duas ou três mesas estavam ocupadas por clientes solitários que afogavam as mágoas em silêncio.

Jerônimo aproveitava a calmaria para reorganizar as garrafas de cachaça na prateleira mais alta, cantarolando um samba antigo, feliz da vida. Ana Lúcia, no entanto, secava copos no balcão com uma energia um pouco agressiva demais, ainda remoendo a conversa que tivera com a filha na cozinha.

Foi quando a figura esguia e sempre bem passada de Eustáquio Ramos surgiu na porta. Ele entrou com a familiaridade de quem frequenta o lugar há décadas, acenando com a cabeça para os conhecidos, mas mantendo aquela postura rígida de quem está sempre julgando o ambiente.

— Boa tarde, família Abreu — saudou Eustáquio, encostando a barriga no balcão.

— Grande Eustáquio! — Jerônimo desceu do banquinho, sorridente. — Sumido, hein, amigo? Vai querer o de sempre? Uma dose da "amansa-sogra"?

— Hoje não, Jerônimo. Me vê só uma água com gás e um café. O estômago tá meio embrulhado. Deve ser desgosto.

Ana Lúcia, que estava de costas, revirou os olhos, mas virou-se com um sorriso profissional no rosto.

— Desgosto de quê, Eustáquio? O Vasco perdeu de novo?

— Antes fosse futebol, Ana — Eustáquio suspirou, pegando um guardanapo e dobrando-o milimetricamente. — É preocupação de pai. Vocês sabem como é. Criar filho hoje em dia é uma guerra.

Jerônimo serviu a água e o café.

— Nem me fale. O meu Patrick voltou do Rio, tá aí cheio de planos, mas a gente fica com o coração na mão, né? Mas é um bom menino.

— Pois é — Eustáquio bebericou o café. — O problema, Jerônimo, é a companhia. Às vezes a gente cria o filho direito, ensina o caminho da igreja e do trabalho, mas aí aparecem as... influências.

Nesse momento, um cliente na mesa do fundo levantou a mão, pedindo a conta.

— Já vai! — gritou Jerônimo. — Com licença, Eustáquio, deixa eu atender o Seu Mário ali que ele tá com pressa. Ana, dá atenção pro nosso amigo aí.

Jerônimo saiu de perto, mancando apressado, deixando Ana Lúcia e Eustáquio sozinhos no "ringue" do balcão.

O silêncio durou três segundos. Eustáquio olhou para Ana Lúcia por cima da xícara.

— Vi meu Jonas saindo com a sua Mariana agora há pouco — comentou ele, o tom casual demais para ser inocente. — Saíram cantando pneu naquele carro velho dele.

Ana Lúcia endireitou a postura, segurando o pano de prato com força.

— Eles são amigos desde criança, Eustáquio. Você sabe disso. Foram brincar de detetive ou sei lá o que esses jovens inventam.

— Amigos... — Eustáquio fez um som de desprezo com a boca. — Eu sei, Ana. Mas o Jonas é um rapaz sério. E a Mariana... bem, a Mariana tem uma fama meio... "alegre" demais pro meu gosto.

O sangue de Ana Lúcia ferveu. Uma coisa era ela, a mãe, chamar a atenção da filha na cozinha de casa. Outra coisa, completamente diferente, era aquele viúvo ranzinza insinuar coisas sobre a sua menina no balcão do bar.

— A minha filha é alegre sim, graças a Deus — Ana Lúcia respondeu, a voz gelada e cortante. — Ela é jovem, bonita e cheia de vida. Não vejo problema nenhum nisso. Ou você preferia que ela fosse amargurada e ficasse trancada em casa cuidando da vida dos outros?

Eustáquio não se abalou. Ele pousou a xícara no pires com um clink suave.

— Eu só acho que mulher direita tem hora pra chegar em casa e modos pra se comportar. A vizinhança comenta, Ana. Dizem que ela é... como é que falam? "Rodada". Eu só não quero que essa fama respingue no meu Jonas.

A mão de Ana Lúcia tremeu. A vontade dela era pegar a água com gás e jogar na cara engomada dele.

— Olha aqui, Eustáquio... — ela começou, inclinando-se sobre o balcão, o dedo em riste. — A língua do povo não tem osso, mas a minha paciência tem limite. A Mariana é uma moça de família. Ela tem pai, tem mãe e tem irmãos que matam e morrem por ela. Se o seu Jonas anda com ela, é porque ele sabe que ela vale ouro. Se você tem medo de "fama", devia prender seu filho numa redoma de vidro, não vir aqui ofender minha filha.

Eustáquio sorriu, um sorriso fino e condescendente, como se estivesse lidando com uma criança birrenta. Ele tirou uma nota de dez reais da carteira e colocou sobre o balcão.

— Não precisa se alterar, vizinha. Eu só estou dando um toque de amigo. Cobra o café e a água.

Ana Lúcia pegou a nota. Ela abriu a caixa registradora com violência. Pegou o troco em moedas. Sua mão fechou-se em torno do metal frio. A tentação de arremessar as moedas na testa dele foi avassaladora. Ela visualizou a cena: as moedas batendo, ele caindo, a justiça sendo feita.

— Tudo certo por aqui? — A voz bonachona de Jerônimo quebrou o transe.

O patriarca voltou, secando as mãos, alheio à nuvem de ódio que pairava sobre a esposa.

Ana Lúcia respirou fundo, engoliu o veneno e depositou as moedas na mão de Eustáquio com uma delicadeza forçada, quase dolorosa.

— O troco, vizinho. Volte sempre.

— Obrigado, Ana — disse Eustáquio, guardando o dinheiro com calma. Ele se virou para Jerônimo. — Eu estava dizendo pra sua esposa, Jerônimo... Meu Jonas é um orgulho. Menino trabalhador, honesto. Vai abrir a própria barbearia mês que vem. "Ramos Barber Shop". Já está com o ponto alugado e tudo.

— Olha só! — Jerônimo bateu no ombro do amigo. — Que beleza! O Jonas merece. Sempre foi focado.

— Pois é — Eustáquio ajeitou a gola da camisa, lançando um último olhar lateral para Ana Lúcia. — Focado. Ele não tem tempo pra ficar farreando por aí com gente errada. Ele sabe o que quer da vida. Diferente de muita gente da idade dele que só quer saber de festa e de dar desgosto pros pais.

Jerônimo assentiu vigorosamente, concordando com a generalização.

— É verdade, é verdade. Essa juventude tá perdida mesmo. Sorte a nossa que criamos os nossos bem, né Eustáquio?

Ana Lúcia sentiu uma veia pulsar na têmpora. O marido estava concordando com o insulto sem nem perceber!

— Bom, vou indo. — Eustáquio deu dois tapinhas no balcão. — Um abraço, Jerônimo. Passar bem, Ana.

Ele saiu do bar, caminhando com a satisfação de quem marcou território.

Assim que ele dobrou a esquina, Ana Lúcia pegou o pano de prato e o arremessou com toda a força no chão.

— Mas que homem detestável! — gritou ela.

Jerônimo parou, assustado, com uma garrafa de cerveja na mão.

— Ué, Ana? O que foi? O Eustáquio é gente boa, freguês antigo...

— "Gente boa" é o caramba, Jerônimo! Você é muito sonso mesmo! Ele estava falando mal da sua filha na sua cara e você aí, batendo palma!

— Falando mal da Mariana? — Jerônimo franziu a testa, confuso. — Ele só falou da barbearia do Jonas...

— Ah, Jerônimo, vai lavar um copo! — Ana Lúcia bufou, pegando o pano do chão e voltando para a cozinha pisando duro. — Se aquele velho aparecer aqui de novo com esse papinho, eu sirvo o café dele com água de salsicha!

Jerônimo ficou sozinho no salão, coçando a cabeça, tentando entender o que tinha perdido, enquanto lá fora, o "focado" Jonas estava prestes a se meter na maior confusão da sua vida ao lado da "má influência" Mariana.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 19

 


O Palio prata de Jonas estacionou silenciosamente atrás de uma caçamba de entulho, a cerca de cinquenta metros do canteiro de obras do "Solar das Acácias". O ar-condicionado do carro lutava bravamente contra o calor das duas da tarde, mas a tensão dentro do veículo fazia a temperatura parecer dez graus mais alta.

— Posição estabelecida — anunciou Jonas, puxando o freio de mão. Ele olhou para Mariana no banco do passageiro. Ela usava óculos escuros enormes e um lenço na cabeça, parecendo uma mistura de Grace Kelly com uma fugitiva da Interpol. — Mari, tem certeza que isso é necessário? A gente parece dois psicopatas.

— Shhh! — Mariana o calou, baixando o vidro apenas um centímetro. — Silêncio no front, soldado. Me passa o binóculo.

— Eu não tenho binóculo, Mariana. Eu disse que ia ajudar meu pai com o chuveiro, não observar pássaros.

— Droga de amadorismo... — resmungou ela, puxando o próprio celular. — Vou ter que usar o zoom digital. Se a imagem pixelar, a culpa é sua.

Ela ergueu o aparelho, apontando a câmera para a estrutura de concreto exposta ao sol. Na tela do celular, a imagem tremida mostrava o caos habitual de uma obra: homens andando de um lado para o outro, betoneiras girando e poeira subindo.

— Cadê... Cadê... — Mariana murmurava, deslizando o dedo na tela para ajustar o foco. — Achei!

No terceiro andar, uma figura esquálida e curvada tentava equilibrar um carrinho de mão cheio de massa.

— Meu Deus... — Mariana cobriu a boca com a mão livre. — Olha aquilo, Jonas! Olha o estado dele!

Jonas esticou o pescoço, tentando ver.

— É o Patrick? Ele tá... ele tá usando as botas do seu pai mesmo? E aquela calça... parece que ele saiu de um filme de naufrágio.

Lá em cima, a realidade era brutal. Patrick sentia que seus braços tinham sido substituídos por gelatina. Ele empurrou o carrinho, tropeçou num pedaço de madeira e quase virou a carga preciosa.

Jadson, que estava logo atrás com uma régua de alumínio na mão, correu para segurar o carrinho antes que ele tombasse. Ele gesticulou vigorosamente, apontando para o joelho de Patrick e depois para as costas, gritando instruções sobre postura para o "sócio" não travar a coluna de vez.

Legenda da Realidade: Jadson: "Dobra o joelho, Patrick! Usa a perna, não as costas! Senão você não chega vivo em casa!"

Legenda na Cabeça de Mariana: Jadson: "Seu inútil! Se derrubar esse cimento, eu dobro a sua dívida! Trabalhe direito, escravo!"

Dentro do carro, Mariana arfou.

— Você viu?! — gritou ela. — Ele ameaçou o Patrick com uma barra de metal! Ele tá gritando na cara do meu irmão!

— Mari, calma. — Jonas franziu a testa. — Parece que ele só tá ensinando a segurar o carrinho. O Patrick é meio desengonçado, você sabe...

— Ensinando? Jonas, o Patrick tá tremendo! Olha lá!

De fato, Patrick largou o carrinho e se apoiou numa coluna, escorregando até sentar no chão de concreto quente. Ele estava hiperventilando, o rosto vermelho como um pimentão, a língua quase para fora. O calor e o esforço tinham cobrado o preço. Ele estava à beira de um desmaio.

Jadson viu o estado do amigo. Preocupado com a insolação, ele largou a régua, pegou um balde de água que estava ali para molhar os tijolos e, num gesto de emergência, jogou a água sobre a cabeça e o tronco de Patrick para resfriá-lo.

Patrick engasgou com o choque térmico, tossindo e balançando os braços, mas logo fez um sinal de "joinha", agradecendo o refresco.

Mas, de longe, através da lente de um celular e do filtro do preconceito, a cena foi outra.

Interpretação de Mariana: O carrasco (Jadson) vendo o prisioneiro (Patrick) cair de exaustão, joga um balde de água suja nele para acordá-lo e forçá-lo a trabalhar mais. Tortura pura. Waterboarding de canteiro de obra.

— NÃO! — Mariana gritou, batendo no painel do Palio com tanta força que o GPS caiu. — ISSO JÁ É DEMAIS!

— O que foi? O que ele fez? — Jonas perguntou, assustado.

— Ele jogou água no Patrick! Igual fazem com prisioneiro de guerra! Ele tá humilhando meu irmão, Jonas! Ele tá tratando o Patrick feito bicho!

Mariana destravou a porta do carro. Seus olhos soltavam faíscas. A "investigadora" tinha dado lugar à "irmã leoa".

— Mari, espera! — Jonas segurou o braço dela. — Pensa um pouco! Por que o Patrick se sujeitaria a isso? Ele é adulto! Se fosse extorsão, ele podia ir na polícia!

— O Jadson deve ter ameaçado a gente! — Mariana rebateu, soltando-se do aperto dele. — Deve ter dito que ia fazer algo com o Murilo, ou com o bar! Chantagem emocional! O Patrick tá se sacrificando pela família e aquele ogro tá lá, rindo e jogando água nele!

— Mari, olha o tamanho daquele mestre de obras ali perto. Se a gente entrar lá...

— A gente nada. Eu vou. Você fica aí sendo racional e covarde. Eu vou salvar meu irmão.

Ela empurrou a porta e saltou do carro. O calor do asfalto subiu pelas pernas dela, mas a raiva a impulsionava.

— Mariana! Volta aqui! — Jonas gritou, desligando o carro e saindo correndo atrás dela. — Droga! Eu sabia que ia dar ruim!

Mariana não ouviu. Ela marchou em direção ao portão de tapumes da obra, seus saltos (sim, ela foi de salto anabela para uma tocaia) batendo firmes no chão. Ela ajeitou os óculos escuros, respirou fundo e preparou o grito.

Lá em cima, Patrick, ensopado e recuperando o fôlego, olhou para baixo e viu um ponto loiro familiar invadindo o perímetro. Seus olhos se arregalaram por trás das lentes sujas de cimento.

— Jadson... — Patrick sussurrou, a voz falhando. — Código Vermelho. A águia pousou. E ela parece furiosa.

Jadson olhou para baixo e viu Mariana gesticulando para o porteiro da obra, com Jonas logo atrás tentando puxá-la.

— Ih, rapaz... — Jadson limpou o suor da testa. — A princesa veio resgatar o dragão. Ou matar ele. Se esconde, Patrick. Eu seguro a bronca.

Mas era tarde demais. O grito de Mariana subiu três andares, cortando o som da betoneira:

— JADSON MEIRA! DESCE AQUI AGORA SEU AGRESSOR DE PLAYBOY!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 18

 


A casa de Jonas Ramos ficava a duas ruas do Bar do Abreu, mas parecia estar em outro fuso horário. Era uma residência térrea, de tijolinhos à vista pintados de branco encardido, com um jardim na frente onde a grama crescia num ritmo lento e ordenado.

Por dentro, o ambiente era o oposto do sobrado dos Abreu. Não havia cheiro de refogado, nem gritaria, nem música sertaneja. Havia o cheiro de cera líquida e o som da televisão ligada num programa policial sensacionalista.

Eustáquio Ramos, 50 anos, estava afundado no sofá de corvim marrom, que já tinha o formato exato do seu corpo moldado na espuma. Viúvo há dez anos, Eustáquio gerenciava a casa e a vida do filho único com a rigidez de um sargento reformado (embora fosse aposentado dos Correios).

Sobre a mesinha de centro, ao lado do controle remoto e de um copo de água, o celular de Jonas vibrou.

A tela acendeu, iluminando a sala penumbrosa.

Nova Mensagem de Voz: Mariana Abreu (00:12)

Os olhos de Eustáquio, que até então acompanhavam uma perseguição policial na TV, desviaram para o aparelho. Suas sobrancelhas grisalhas se juntaram numa linha única de desaprovação.

— Mariana Abreu... — resmungou ele. — Aquela bisca.

Ele esticou o braço e pegou o celular do filho. Eustáquio sabia a senha (0000), porque em sua concepção, "quem não deve, não teme". Ele desbloqueou o aparelho e encarou o ícone verde do WhatsApp.

Sem ouvir o áudio, ele pressionou o dedo sobre a mensagem, selecionou a lixeira e confirmou: Apagar para mim.

Ele bloqueou a tela e devolveu o celular à mesa, exatamente na mesma posição, com a consciência tranquila de quem acaba de salvar o filho de uma "má influência".

Segundos depois, Jonas entrou na sala, secando o cabelo com uma toalha. Ele vestia uma bermuda jeans e camiseta, exalando aquele cheiro de banho tomado.

— Pai, viu meu celular? — perguntou Jonas, olhando em volta. — Achei que tinha deixado carregando no quarto.

Eustáquio não tirou os olhos da TV.

— Tá aí na mesa. Tocou agorinha. Deve ser cobrança da operadora.

Jonas pegou o aparelho, desbloqueou e franziu a testa. Nenhuma notificação. Estranho. Ele ia perguntar algo, mas o celular vibrou em sua mão, quase o assustando.

Mariana Abreu: Áudio (00:08) Mariana Abreu: JONAS! CADÊ VOCÊ?! É URGENTE!

Jonas olhou para o pai, que permanecia impassível, e depois para a tela. Ele clicou no botão de chamar imediatamente.

Aleluia! — A voz de Mariana estourou no ouvido dele antes mesmo do "alô". — Você tá surdo? Eu mandei um áudio explicando o plano tático e você ignorou!

— Calma, Mari. — Jonas riu, indo para a cozinha para fugir do volume da TV (e dos ouvidos do pai). — Plano tático? O que aconteceu? Invadiram o Capitólio?

Pior. O golpe tá em andamento, Jonas! Eu vi! Eu vi com meus próprios olhos! O Patrick entregando os tênis dele pro Jadson no meio da rua!

— Tênis? — Jonas abriu a geladeira, pegando uma garrafa de água. — O Patrick tá vendendo muamba agora?

Não, seu lerdo! É extorsão! O tal Jadson deve estar cobrando dívida e o Patrick tá pagando com roupa porque não tem dinheiro! A gente precisa seguir eles. Pega o carro. Agora.

Jonas encostou no balcão, sorrindo. Ele adorava quando Mariana entrava nesse modo "filme de ação". Era absurdo, era dramático, mas era a coisa mais divertida que acontecia na vida monótona dele.

— Mari, eu ia ajudar meu pai a consertar o chuveiro...

O chuveiro espera. A honra da família Abreu não! Jonas, por favor... Eu preciso do meu Golden Retriever de guarda. Vai deixar eu ir sozinha pra uma obra cheia de homens brutos e perigosos?

Golpe baixo. Ela sabia exatamente onde apertar.

— Tá bom, tá bom. — Jonas suspirou, rendido. — Passo aí em dez minutos. Mas se for alarme falso, você me paga um açaí.

Fechado. Traz binóculos se tiver. Beijo!

Jonas desligou, ainda rindo, e voltou para a sala pegando a chave do carro.

— Vai sair? — A pergunta de Eustáquio veio seca, como um tiro de festim.

— Vou, pai. Dar uma volta.

— Com a filha do Jerônimo, né? — Eustáquio virou o rosto, finalmente encarando o filho. — Eu ouvi a voz dela gritando no telefone. Essa menina não tem modos.

— Ela é animada, pai. Só isso.

— Animada... — Eustáquio bufou. — Antigamente a gente tinha outro nome pra isso. Jonas, você é um rapaz direito. Tem futuro. Essa garota é... complicada. A boca do povo não perdoa. Ela vive em festa, não trabalha, não estuda... O que você acha que vai ganhar andando com ela?

Jonas parou na porta. A postura relaxada dele enrijeceu. Ele respeitava o pai, mas aquele discurso já estava velho.

— Eu ganho a companhia da minha melhor amiga, pai. — Jonas respondeu, a voz calma, mas firme. — E o que o povo fala, não me interessa. Eu conheço a Mariana de verdade. A senhora Cida da padaria não conhece.

— Você tá perdendo seu tempo — insistiu Eustáquio, voltando a olhar para a TV, amargo. — Mulher assim só serve pra dar dor de cabeça. Depois não diga que eu não avisei.

— Tchau, pai. Volto pro jantar.

Jonas saiu, fechando a porta com cuidado para não bater.

Na sala, o silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelas sirenes do programa policial. Eustáquio ficou olhando para a porta fechada por um longo minuto. A expressão dele não era apenas de ranzinzice; era de preocupação. Ele via o filho se envolvendo cada vez mais com "aquela gente barulhenta" e sentia que estava perdendo o controle.

— Não vai prestar... — murmurou ele.

Com um suspiro pesado, Eustáquio desligou a TV. O reflexo preto da tela mostrou um homem sozinho numa sala vazia. Ele não gostava daquilo.

Decidido, Eustáquio levantou-se do sofá. Foi até o quarto, trocou a camisa de ficar em casa por uma polo listrada, penteou os poucos cabelos que lhe restavam e pegou a carteira.

Se o filho não ia ouvir por bem, talvez ele precisasse ver com os próprios olhos o que estava acontecendo. Ou talvez Eustáquio tivesse seu próprio destino misterioso naquela tarde de quarta-feira.

Ele trancou a casa e saiu caminhando pela rua, na direção oposta à que Jonas tinha ido, mas com a mesma determinação no passo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 17

 


A quarta-feira amanheceu com um sol que parecia ter acordado de mau humor, decidido a fritar cada habitante de Vitória.

No quarto que dividia (ou invadia) com Vinícius, Patrick abriu os olhos e desejou imediatamente fechá-los para sempre. Cada centímetro do seu corpo doía. Era uma dor democrática: atingia os braços, as pernas, as costas e até músculos que ele nem sabia que existiam, como os das orelhas.

Ele tentou se sentar, mas soltou um gemido que soou como uma porta velha rangendo.

— Ih, o robô tá enferrujado — comentou Vinícius, que já estava de uniforme escolar, amarrando o tênis. — A aula de Crossfit foi pesada, hein? Ou será que o "mercado asiático" te deu uma surra?

Patrick ignorou a provocação, concentrando-se na tarefa hercúlea de ficar em pé.

— Alta performance exige sacrifício, Vinícius. O corpo é um templo... que às vezes precisa ser demolido para ser reconstruído.

Ele pegou uma sacola plástica que escondera debaixo da cama na noite anterior. Dentro, havia um par de botas de couro velhas e gastas que pertenciam a Jerônimo (furtadas silenciosamente da sapateira do pai) e uma calça jeans que já tinha visto dias melhores. Era o seu "uniforme" para o segundo dia de inferno.

******

No quarto ao lado, Mariana não estava muito melhor.

Ela acordou com a sensação de que havia uma escola de samba ensaiando dentro da sua cabeça. A luz que entrava pela fresta da cortina parecia laser.

— Nunca mais... — sussurrou ela, cobrindo o rosto com o travesseiro. — Nunca mais eu bebo cerveja barata pra arrancar confissão de ninguém.

Mas a dor de cabeça não era o pior. O pior eram os flashes. Flash 1: Ela elogiando os olhos dele. Flash 2: Ela tropeçando e sendo segurada por braços fortes. Flash 3: Aquele quase-beijo na escada. Flash 4: Ela dizendo "Você fala bonito, ogro".

Mariana gemeu de vergonha, chutando o edredom. Como ela ia olhar na cara dele agora? Ela, a investigadora implacável, tinha virado uma adolescente apaixonada depois de quatro long necks.

— Foco, Mariana. Foco — disse ela para si mesma, levantando-se zonza. — Você estava bêbada. Foi um lapso de julgamento. Ele ainda é um suspeito. Um suspeito... cheiroso. Droga.

******

Enquanto isso, num escritório cinzento no centro da cidade, Fernando olhava para a tela do computador sem ver os números da planilha. Seu celular vibrava incessantemente sobre a mesa.

"Cíntia (Não Atender)" brilhava no visor.

Na quinta chamada, ele atendeu, escondendo-se atrás de uma pilha de pastas.

— O que foi, Cíntia? Eu tô no trabalho.

Fernando! — A voz dela era estridente. — A EDP acabou de passar aqui! Eles iam cortar a luz! O aviso de corte tava na caixa de correio e você não pagou!

— Eu não paguei porque a conta venceu depois que eu saí de casa, Cíntia. A responsabilidade agora é...

A responsabilidade é sua! A conta tá no nome do seu pai! Você quer que o Jerônimo fique com o nome sujo? Eu tive que implorar pro técnico não cortar, disse que tinha um bebê doente em casa!

— O Murilo nem tá aí, Cíntia! E ele tem oito anos!

Não interessa! Fernando, resolve isso agora. Paga essa conta ou eu ligo pro seu pai e conto que o filhinho dele é um caloteiro.

A chamada encerrou. Fernando sentiu o estômago revirar. Ele olhou para a sala do supervisor. Se saísse agora, levaria uma advertência. Mas se não pagasse, o nome do pai iria para o Serasa.

Ele pegou o paletó.

— Chefe... — Fernando bateu na porta de vidro. — Vou ter que sair. Emergência familiar.

— De novo, Abreu? — O supervisor nem olhou para cima. — Cuidado. A fila de desempregado tá grande lá fora.

Fernando engoliu o sapo, baixou a cabeça e saiu, sentindo-se o menor homem do mundo.

******

De volta ao Bairro Esperança, Patrick descia a rua lateral, mancando, tentando se manter nas sombras. Ele usava óculos escuros gigantes para esconder as olheiras e carregava a sacola com as botas do pai como se fosse contrabando.

Na esquina, Jadson o esperava, encostado num poste, fresco como uma alface.

— Bom dia, "consultor". — Jadson riu ao ver o estado do amigo. — Tá andando meio torto.

— É o ácido lático, Jadson. Acúmulo severo. — Patrick parou, ofegante. — Escuta... hoje a gente podia pegar leve, né? Tipo... pintar rodapé? Varrer a calçada?

Jadson deu um tapinha consolador (e doloroso) no ombro dele.

— Sonha, Patrick. Hoje é dia de laje. O caminhão de concreto chega daqui a pouco. A gente vai ter que espalhar, vibrar e alisar o concreto debaixo desse sol. É o pior dia da obra.

Patrick sentiu vontade de chorar.

— Laje? Jadson, eu não tenho estrutura física pra laje! Eu sou um homem de soft skills!

— Então prepara essa skills e a coluna, porque o Bigode tá com a pá na mão te esperando. E troca logo esse tênis por essa bota aí, antes que alguém veja.

Patrick sentou-se no meio-fio para trocar o calçado, resmungando palavrões que não combinavam com seu vocabulário corporativo.

Foi nesse momento infeliz que o portão da casa dos Abreu se abriu.

Mariana saiu, de óculos escuros e boné, indo para a farmácia comprar um Engov. Ela queria evitar o mundo, mas o destino tinha outros planos.

Ela viu os dois na esquina. Jadson, em pé, parecendo um monumento à saúde e ao trabalho braçal. E Patrick... sentado na sarjeta, tirando um tênis de marca e calçando... as botas velhas de pescaria do pai?

Mariana parou, escondida atrás de uma árvore. A dor de cabeça latejou, mas a curiosidade falou mais alto.

— O que diabos eles estão fazendo? — sussurrou ela.

Ela viu Patrick levantar, bater a poeira da calça velha e entregar a sacola com os tênis chiques para Jadson, que a guardou na mochila dele.

— Olha só... — Mariana semicerrou os olhos por trás das lentes escuras. — O Patrick tá entregando os tênis pro Jadson? Será que ele tá vendendo as roupas pra pagar dívida de jogo? Ou o Jadson tá cobrando "proteção"?

A teoria do golpe ganhou uma nova camada. Na cabeça fértil e ressacada de Mariana, Jadson agora não era apenas um golpista; era um agiota que aceitava tênis usados como pagamento.

— Eu sabia! — Ela concluiu, triunfante e tonta. — Aquele papinho de "construir lares" era fachada. Você tá extorquindo meu irmão, seu pedreiro de araque. E eu vou provar.

Enquanto os dois sumiam na direção da obra, Mariana esqueceu a farmácia. Ela deu meia-volta e entrou em casa correndo (o que fez sua cabeça protestar violentamente). Ela precisava de um plano. E precisava de Jonas.

— Alô, Jonas? — Ela mandou áudio assim que entrou no quarto. — Prepara o carro. A gente vai fazer uma tocaia.

CONTINUA...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 16

 


A mesa de plástico vermelha já acumulava seis garrafas vazias de cerveja. Dessas seis, Jadson bebera duas, com calma e moderação. Mariana, em sua ânsia investigativa de "Mata Hari do Bairro Esperança", bebera as outras quatro.

O plano era perfeito na teoria: embebedar o alvo, deixá-lo vulnerável e extrair a confissão do golpe. Na prática, porém, Mariana esqueceu um detalhe biológico fundamental: tentar acompanhar o fígado de um pedreiro acostumado a beber "litrão" depois de bater laje era suicídio etílico para uma garota acostumada com Gin Tônica e Aperol Spritz.

— ...e então, Jadson... — Mariana gesticulou, quase derrubando o porta guardanapos. A voz dela estava um tom acima do necessário e as sílabas começando a se arrastar. — Você diz que "construir" é sua paixão. Mas construir o quê? Castelos de areia? Pirâmides... financeiras?

Jadson sorriu, girando o copo na mesa. Ele percebeu que a "princesa" estava ficando altinha, mas achou a situação curiosamente cativante. As bochechas dela estavam coradas, e o olhar afiado de antes agora parecia brilhante e meio perdido.

— Não, Mariana. — Jadson inclinou-se para frente, os olhos brilhando com uma paixão genuína. — Eu falo de casa. De lar. Sabe quando você passa na frente de um prédio e pensa "alguém desenhou isso, alguém suou pra levantar isso"? É isso que eu quero. Meu sonho não é carregar saco de cimento pra sempre. Eu quero fazer Engenharia Civil. Quero ter minha própria empreiteira. "Construtora Meira". Soa bem, não soa?

Mariana piscou, tentando focar no rosto dele. O rosto dele, aliás, estava perigosamente bonito naquela luz amarelada do bar.

— Construtora Meira... — ela repetiu, provando o nome. — É... soa chique. Mas engenharia é difícil. Tem muito cálculo. Muita física. Você acha que dá conta?

— Eu já faço o cálculo na cabeça, Mariana. — Ele bateu na têmpora com o indicador. — Eu olho pro terreno e sei quanto de ferro vai, quanto de concreto. A teoria eu aprendo no livro, mas a prática... a prática eu já tenho no sangue. Eu quero construir coisas que durem. Que não caiam na primeira tempestade.

Mariana apoiou o queixo nas mãos, hipnotizada. Ela esperava ouvir planos de "ficar rico rápido", "investir em criptomoeda fantasma" ou "dar o golpe no baú". Em vez disso, estava ouvindo um homem falar sobre concreto armado com a mesma devoção que um poeta fala sobre o amor.

— Você fala bonito, ogro — ela deixou escapar, num sussurro sincero demais.

Jadson riu, um som grave que vibrou no peito dele e, estranhamente, reverberou no estômago de Mariana.

— Obrigado, eu acho. Mas e o Patrick? — Jadson mudou o assunto, lembrando-se do "sócio" sofredor. — Você pega muito no pé dele, mas ele tá se esforçando, viu? Hoje mesmo... olha, eu nunca vi alguém carregar tanto peso na consciência e nas costas ao mesmo tempo.

A antena de Mariana, mesmo bêbada, captou o sinal.

— Peso? — Ela semicerrou os olhos. — Que peso? O Patrick não aguenta levantar nem um halter de dois quilos. Ele é fraco.

— Ah, não subestime seu irmão. — Jadson quase mordeu a língua. Ele ia dizer "Ele carregou mil tijolos hoje". Disfarçou rápido: — O peso da responsabilidade corporativa é... denso. Ele saiu de lá hoje moído. Parecia que tinha sido atropelado por um trator.

— Ele disse que foi Crossfit — Mariana murmurou, confusa.

— É... tipo isso. Crossfit de... gestão. Levantar métricas, puxar resultados... — Jadson tomou um gole longo de cerveja para esconder o riso. — O que eu quero dizer é: ele gosta da família. Tudo o que ele faz, certo ou errado, doido ou sensato, é pra tentar impressionar vocês. Principalmente o Seu Jerônimo.

Mariana sentiu um aperto no peito. Ela olhou para o balcão, onde o pai já estava empilhando as cadeiras, sinalizando o fim do expediente.

— É... o velho é exigente — concordou Mariana. Ela tentou se levantar para ir ao banheiro, mas o chão do Bar do Abreu decidiu fazer um movimento brusco para a esquerda.

— Opa!

Mariana cambaleou, o salto alto traindo seu equilíbrio comprometido. Ela fechou os olhos, esperando o impacto frio do piso, mas o que sentiu foi calor e firmeza.

Duas mãos fortes a seguraram pela cintura e pelo braço, impedindo a queda.

Ela abriu os olhos. O rosto de Jadson estava a centímetros do dela. Ela podia sentir o cheiro dele: sabonete barato, desodorante amadeirado e um leve toque de cimento, mas que nela parecia perfume importado.

O mundo parou de girar por um segundo. A respiração dela engatou.

— Cuidado aí, princesa — disse Jadson, baixo. Ele não a soltou imediatamente. O aperto dele era seguro, protetor. Não havia malícia, não havia a "mão boba" que ela estava acostumada a repelir nas baladas. Havia apenas... cavalheirismo.

— Eu... eu tô bem — gaguejou Mariana, mas suas pernas pareciam gelatina. — Foi o salto. Esse piso é irregular. O engenheiro que fez isso devia ser demitido.

Jadson sorriu de canto.

— Pode deixar. Quando eu me formar, eu venho aqui e nivelo o piso pro seu pai. Por conta da casa.

Ele a ajudou a se firmar, mas manteve uma mão nas costas dela, guiando-a gentilmente.

— Acho que a saideira já foi, né? Vem, eu te ajudo a subir a escada.

— Eu sei subir escada! — Mariana protestou, tentando recuperar a dignidade de investigadora, mas aceitando o apoio.

Eles caminharam até o acesso da casa. Jerônimo e Ana Lúcia, que fingiam limpar o balcão freneticamente, trocaram olhares e sorrisos cúmplices dignos de adolescentes.

— Boa noite, Seu Jerônimo! Boa noite, Dona Ana! — Jadson gritou da porta. — Tô entregando a moça sã e salva. Quase salva.

— Boa noite, meu filho! Vai com Deus! — respondeu Ana Lúcia, radiante.

Na porta da escada, Jadson parou.

— Consegue subir daqui?

Mariana se apoiou no corrimão, olhando para ele de cima do primeiro degrau. Agora eles estavam na mesma altura. A luz da rua iluminava metade do rosto dele, deixando a outra na sombra. Misterioso. Irritante. Atraente.

— Consigo — disse ela. A névoa do álcool estava passando, dando lugar a uma confusão emocional terrível. — Jadson?

— Oi?

— Você... você é real? Ou é tudo papinho de vendedor?

Jadson colocou as mãos nos bolsos da calça jeans. Ele a encarou com seriedade.

— Eu sou o que você vê, Mariana. Sem reboco, sem pintura. O que tem por dentro é o que tá por fora. Boa noite.

Ele se virou e saiu caminhando pela calçada, as botas fazendo um som pesado e constante.

Mariana ficou ali, parada no degrau, segurando o corrimão.

— Droga — sussurrou ela para a escada vazia. — Ele é real.

Ela subiu os degraus tropeçando, com uma certeza incômoda crescendo no peito: sua investigação tinha falhado miseravelmente. Ela não tinha descoberto nenhum crime do Jadson. A única coisa que ela tinha descoberto era que, talvez, apenas talvez, o "ogro" fosse o príncipe que ela jurava não estar procurando.

E agora? Como ela ia continuar odiando o homem que queria nivelar o chão para ela não cair?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 15

 


A noite caiu sobre o Bairro Esperança, trazendo com ela a brisa do mar e o movimento habitual do Bar do Abreu. Diferente da segunda-feira morta, a terça trazia os clientes fiéis: o Seu Zé do jogo do bicho, a turma do futebol de várzea e os casais que queriam comer um tira-gosto barato.

No andar de cima, porém, a atmosfera era de enfermaria de guerra.

Patrick subiu o último degrau da escada de gatinhas. Literalmente. Ele se arrastou pelo corrimão, sentindo cada fibra do seu corpo gritar em protesto contra as oito horas de servente de pedreiro.

— Patrick? — Fernando apareceu no corredor, segurando um travesseiro e um lençol. Ele estava tentando montar uma "cama" decente no chão apertado do quarto de costura, entre manequins e carretéis de linha. — O que houve? Você foi atropelado?

Patrick ergueu-se com dificuldade, apoiando a mão na lombar como um senhor de noventa anos.

— Atropelado pela busca da excelência, meu irmão — gemeu Patrick, forçando um sorriso torto. — Fiz uma imersão de Biohacking e Crossfit Executivo hoje à tarde. É uma nova tendência de liderança: levar o corpo ao limite para expandir a mente. No pain, no gain.

— Sei... — Fernando olhou desconfiado para a camisa do irmão, que tinha uma mancha branca suspeita perto da gola (cimento que o banho de mangueira não tirou). — E expandiu a mente?

— Expandiu tudo. Principalmente as dores nas costas. — Patrick entrou na sala e desabou no sofá, soltando um "aaahhh" profundo. — Mas valeu a pena. O networking foi intenso.

Nesse momento, o cheiro de pizza invadiu o ambiente. Vinícius entrou na sala equilibrando duas caixas grandes de papelão.

— Chegou o rango! — anunciou o caçula. — Patrick, tu é o cara! Pizza de Quatro Queijos e de Calabresa com Catupiry! A mãe vai chiar que é "veneno industrializado", mas a gente come antes dela ver.

Patrick sorriu, orgulhoso. Ele tinha gastado setenta reais da sua diária de cem naquelas pizzas. Sobraram trinta. A dívida com o agiota continuava monstruosa, mas ver a cara de felicidade do irmão caçula e o alívio de Fernando (que estava comendo pão com manteiga há dois dias) valia o risco financeiro.

— É por minha conta — disse Patrick, acenando com a mão (e sentindo uma fisgada no ombro). — Dividendo distribuído é alegria compartilhada. Podem atacar.

Enquanto Fernando e Vinícius devoravam as fatias, Mariana saiu do banheiro, envolta numa toalha e com um turbante na cabeça. Ela parou, observando Patrick largado no sofá, com os olhos fechados e uma expressão de sofrimento.

Ela se aproximou, silenciosa como um gato. Inclinou-se perto da cabeça do irmão.

— Que cheiro é esse, Patrick? — perguntou ela.

Patrick abriu um olho, assustado.

— Cheiro? Cheiro de sucesso, Mari. De pizza.

— Não. — Ela farejou perto da orelha dele. — Cheiro de... terra molhada? Cal? Você andou rolando no chão?

— É argila terapêutica! — Patrick improvisou rápido, o coração disparando. — Parte do tratamento do spa. Esfoliação vulcânica. Muito chique.

Mariana estreitou os olhos. Argila, spa, pizza cara... A história parecia consistente com a de um rico excêntrico. Mas algo naquilo não encaixava. Ela olhou para a mancha na gola dele. Parecia muito com reboco de parede.

— Hum. — Ela se afastou, pegando uma fatia de pizza com a ponta dos dedos. — Aproveita sua pizza, "executivo". Eu vou descer. Tenho um trabalho a fazer.

— Trabalho? — Fernando perguntou de boca cheia. — Você arrumou emprego?

Mariana sorriu. Aquele sorriso perigoso que ela tinha treinado no espelho.

— Digamos que eu vou fazer uma auditoria de qualidade no bar. Tem um elemento suspeito rondando nossa família, e hoje eu vou arrancar a verdade dele.

Ela foi para o quarto se arrumar. Não vestiu sua roupa de balada habitual. Escolheu algo estratégico: um jeans que valorizava as curvas, mas parecia casual, e uma blusa preta de alcinha. Cabelo solto, maquiagem leve de "acordei linda assim". A isca estava pronta.


Lá embaixo, o Bar do Abreu estava animado. O som ambiente tocava um sertanejo universitário num volume agradável. Jerônimo tirava chope com maestria, e Ana Lúcia comandava a chapa, fritando porções de aipim.

Numa mesa de canto, longe da TV, estava Jadson.

Ele tinha tomado um banho decente na pensão, barbeado o rosto e vestido uma camisa polo azul-marinho (simples, mas limpa) e calça jeans. Estava cansado, mas era aquele cansaço bom de dever cumprido. Ele bebia uma cerveja gelada devagar, observando o movimento, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, parte de algo.

Até que uma sombra cobriu sua mesa.

— Posso sentar? — A voz era doce. Doce demais.

Jadson levantou os olhos e quase engasgou com o gole de cerveja.

Mariana estava parada ali, segurando uma long neck. Mas não era a Mariana agressiva da noite anterior. O olhar de desprezo tinha sumido, substituído por um interesse brilhante e, se ele não estivesse enganado, levemente sedutor.

— Ué... — Jadson limpou a boca com as costas da mão, desconfiado. — O bar é livre, "princesa". Mas achei que você preferisse sentar longe do "ogro".

Mariana riu, jogando o cabelo para trás e sentando-se na cadeira à frente dele. Ela cruzou as pernas, invadindo sutilmente o espaço pessoal dele.

— Ai, Jadson, desculpa por ontem. Eu estava estressada, TPM, sabe como é... — Ela mentiu com a fluidez de uma atriz de Hollywood. — Minha mãe me deu uma bronca. Disse que eu fui mal-educada com o amigo do Patrick. E a Dona Ana tem razão. A gente começou com o pé esquerdo.

Jadson a observou. Ele não era bobo. Ninguém muda da água para o vinho em vinte e quatro horas sem motivo. Mas, sendo homem e tendo sangue nas veias, era difícil manter a guarda alta quando a mulher mais bonita do bairro estava sorrindo para ele daquele jeito.

— Tudo bem — disse Jadson, cauteloso. — Águas passadas.

— Então... — Mariana inclinou o corpo para frente, apoiando o queixo na mão. — Me conta mais. O Patrick fala tanto de você. Diz que você é um "talento bruto". O que você faz exatamente? Além de carregar mala de executivo, claro.

Jadson sorriu de canto. A ironia ainda estava lá, escondida no elogio.

— Eu construo coisas, Mariana. Fundações. Levanto paredes. Garanto que a estrutura não caia na cabeça de ninguém.

Mariana piscou. Fundações. Estruturas. Na cabeça dela, aquilo era código para "Esquema de Pirâmide".

— Interessante... — ela murmurou, os olhos fixos nos dele. — E dá dinheiro isso? Construir "estruturas"? O Patrick parece que investe pesado nisso, né?

Jadson riu. Se ela soubesse que o "investimento pesado" do Patrick era carregar saco de cimento de cinquenta quilos nas costas...

— Dá pra viver. É suado, mas é honesto. O Patrick... bem, o Patrick tá aprendendo que não existe dinheiro fácil. Ele tá começando de baixo agora.

Mariana sentiu o coração acelerar. Aha! Ele admitiu! "Patrick tá aprendendo", "Começando de baixo". Isso confirmava sua teoria: Jadson era o mentor do golpe, e Patrick era o aprendiz que estava sendo sugado.

Ela precisava de mais. Precisava que ele confessasse que estava explorando o irmão.

— Sabe, Jadson... — Ela esticou a mão e tocou levemente no braço dele, sobre a mesa. A pele dele era quente e firme. Mariana sentiu um arrepio involuntário, mas ignorou. Foco na missão. — Eu admiro homens ambiciosos. Homens que sabem... manipular as oportunidades.

Jadson franziu a testa, olhando para a mão dela no braço dele. Aquele toque era macio. O perfume dela era inebriante. Mas a conversa estava estranha.

— Manipular? — Ele repetiu. — Eu prefiro dizer "aproveitar". Quando a massa tá no ponto, você tem que chapar na parede, senão seca.

— Exatamente! — Mariana sorriu, achando que ele estava usando outra metáfora criminosa. — E você acha que o Patrick é uma "massa" boa de trabalhar? Ou ele é muito mole?

Jadson soltou uma gargalhada genuína, lembrando da cena do Patrick com sacolas nos pés.

— Ah, o Patrick é meio mole sim. Mas com o tempo ele endurece. Eu tô dando um jeito nele. Hoje mesmo eu fiz ele suar a camisa. Ele reclamou, mas entregou o serviço.

Mariana recolheu a mão, chocada e triunfante. Ele admitiu! "Fiz ele suar", "Entregou o serviço". Jadson estava extorquindo o Patrick! Estava fazendo o irmão dela de gato e sapato!

A raiva voltou, mas ela a mascarou com um gole de cerveja.

— Nossa, Jadson. Você deve ser muito... dominante nos negócios. — Ela usou um tom de flerte, mas seus olhos scaneavam a reação dele. — Vamos pedir outra? Por minha conta. Eu quero saber todos os detalhes dessa sua "parceria" com meu irmão. Eu adoro histórias de... construção.

Jadson, inocente e começando a achar que talvez, talvez, ela estivesse realmente interessada nele (ou no trabalho dele), assentiu.

— Pode ser. Mas eu pago a minha.

— Que isso... — Mariana levantou a mão para chamar o pai. — Garçom! Desce mais duas aqui pro meu novo amigo! Vamos brindar ao... suor do Patrick.

Do balcão, Jerônimo e Ana Lúcia observavam a cena.

— Olha lá, Ana — sussurrou Jerônimo, limpando um copo. — A Mariana e o rapaz da obra. Tão conversando. E ela tá rindo.

— Eu disse — Ana Lúcia sorriu, satisfeita. — O santo bateu. Deixa eles. Quem sabe ela não toma jeito com um rapaz trabalhador?

Mal sabiam eles que, na mesa do canto, estava acontecendo um interrogatório disfarçado de encontro, e que Mariana Abreu estava prestes a embebedar o pedreiro para salvar a fortuna (inexistente) da família.