— Mas e o rendimento, filho? É juros compostos? É CDB? — Jerônimo perguntava enquanto subiam a escada estreita para a casa, segurando a mala de Patrick como se fosse um baú de tesouro.
Patrick limpou o suor da testa, torcendo para que o pai parasse de fazer perguntas difíceis.
— É muito mais complexo que isso, pai. É Blockchain. É criptografia quântica aplicada a ativos de volatilidade variável — Patrick soltou um monte de palavras que ele tinha lido no Twitter. — O segredo do sucesso é o sigilo estratégico. Se eu falar muito, o mercado oscila.
Jerônimo parou no degrau, impressionadíssimo.
— Criptografia quântica... — repetiu o pai, balançando a cabeça. — É, Ana, nosso filho é um gênio. Eu sempre disse.
— Tá, tá, gênio da lâmpada — Ana Lúcia cortou, prática como sempre. — O importante é que você tá em casa. Mas temos um probleminha logístico.
Eles chegaram à sala. Vinícius estava jogado no sofá, assistindo a um streamer gritar na TV.
— Que probleminha? — Patrick perguntou, desconfiado, olhando para a porta do seu antigo quarto.
— O Fernando tá no quarto de costura — explicou Ana Lúcia. — E como não temos quarto de hóspedes... você vai ficar no quarto do Vinícius.
Patrick parou. Ele olhou para Vinícius. Vinícius olhou para ele e sorriu, um sorriso que prometia noites de tormento.
— Nem vem reclamar — adiantou-se o caçula. — Eu durmo com o ar no 17 graus e jogo League of Legends até as três da manhã falando no Discord. Se roncar, eu taco o travesseiro.
— Mãe?! — Patrick implorou com o olhar. — Eu sou um executivo cansado! Eu preciso de silêncio para... operar a bolsa!
— A bolsa fecha às cinco, Patrick. E o Vinícius só joga depois da escola. Vocês que se entendam — Ana Lúcia decretou, encerrando o assunto e indo para a cozinha começar o jantar. — Vai tomar um banho, menino. Você tá cheirando a ônibus.
Enquanto a família se dispersava na confusão doméstica de toalhas e disputas pelo banheiro, Mariana permaneceu perto da porta da sala. Ela observou a cena: o pai orgulhoso, a mãe atarefada, os irmãos brigando. Havia uma rachadura naquela harmonia, e o nome dela era Cíntia.
Um sorriso malicioso, que não combinava com seus cílios de boneca, curvou os lábios de Mariana.
— Vou ali resolver um B.O. — murmurou ela para ninguém em particular.
Ela girou nos calcanhares e desceu as escadas, mas não foi para a rua. Seguiu pelo atalho do beco lateral que cortava caminho até a rua de trás, onde ficava a casa alugada de Fernando.
A casa de Cíntia e Fernando (agora, só de Cíntia) não tinha o calor caótico do sobrado dos Abreu. Era uma casa térrea, de paredes brancas e móveis planejados que Fernando ainda estava pagando em 24 vezes.
Lá dentro, Cíntia varria a sala com a fúria de quem varre o próprio destino.
— Maldita poeira... — resmungava ela, passando a vassoura com violência perto do rack da TV. — Eu não nasci pra isso. Não nasci pra ficar esfregando chão enquanto minhas amigas postam foto em Manguinhos. Eu devia ter casado com o Rogério da farmácia.
Ela parou diante de uma estante. Lá estava um porta-retratos prateado. A foto do casamento: Fernando sorrindo, com aquele olhar de adoração, e ela vestida de noiva, linda, mas com um sorriso que não chegava aos olhos.
A raiva subiu pela garganta de Cíntia. Ela pegou o porta-retratos.
— "Vai melhorar, Cíntia. Tenha paciência, Cíntia" — ela imitou a voz do marido, erguendo a mão para arremessar a foto contra a parede oposta.
— Se eu fosse você, não quebrava. Vidro dá um trabalho desgraçado pra limpar.
Cíntia congelou. Ela se virou bruscamente.
Mariana estava parada na porta da sala, que estava entreaberta. A cunhada tinha os braços cruzados, a postura ereta e um olhar que Cíntia nunca tinha visto nela: frio e avaliador. Não era a "Mariana Festeira". Era a Mariana Abreu.
— O que você quer aqui, garota? — Cíntia baixou a mão, mas não soltou o porta-retratos. — Veio buscar as tralhas do seu irmão? Estão ali no canto. Pode levar.
Mariana entrou na sala, ignorando o tom agressivo. Ela caminhou devagar, seus saltos estalando no piso laminado.
— Vim ver se você tinha matado alguém, porque pela forma em que o Fernando chegou lá em casa, parecia filme de terror — Mariana disse, parando a dois metros da ex-cunhada. — Mas vejo que você só está varrendo. E reclamando. Novidade.
— Sai da minha casa, Mariana — Cíntia sibilou. — Eu não tenho paciência pra patricinha de bairro hoje.
— Essa casa é alugada no nome do meu pai, Cíntia. Esqueceu quem foi o fiador? — Mariana rebateu, sem elevar a voz. A calma dela desestabilizou Cíntia mais do que qualquer grito. — Mas não vim falar de aluguel. Vim falar do meu sobrinho. E do meu irmão.
— O Fernando é um fracassado — Cíntia soltou, o veneno escorrendo. — Eu cansei de esperar ele "virar alguém". Eu tenho vinte e cinco anos, Mariana! Eu quero viver! Ele só quer saber de economizar, de trabalhar, de pagar boleto... Ele é chato!
— Ele é responsável — corrigiu Mariana, firme. — Ele te deu essa casa, te deu conforto, pagou a escola do Murilo e nunca te deixou faltar nada, mesmo ganhando pouco. Sabe o que é isso, Cíntia? É homem de verdade. Coisa que você, com essa sua cabecinha de vento que acha que vida real é feed de Instagram, nunca valorizou.
Cíntia abriu a boca para ofender, mas Mariana levantou a mão, pedindo silêncio.
— Escuta aqui. O Nando está lá em casa. O Murilo vai pra lá também assim que sair da escola. Eles têm uma família. Eles têm os Abreu. E você? Quem você tem, Cíntia? As "amigas" que só aparecem quando tem churrasco grátis?
Cíntia apertou o cabo da vassoura, os olhos marejados de raiva e, talvez, de uma verdade que ela não queria admitir.
— Eu não preciso de vocês.
— Veremos — disse Mariana. Ela deu um passo à frente, encarando Cíntia nos olhos. — O Fernando pode ser bonzinho, o pai pode ser coração mole, mas eu não sou. Eu sei exatamente quem você é.
Mariana se virou para sair, mas parou na porta e olhou por cima do ombro.
— Apareça lá no bar hoje à noite. Precisamos definir a rotina do Murilo e as coisas do divórcio. O Fernando não tem cabeça pra isso agora, então nós vamos resolver.
— Eu não vou pisar naquele bar sujo — Cíntia cuspiu as palavras.
Mariana sorriu. Não um sorriso feliz, mas um sorriso perigoso.
— Você vai. Porque se não for, você prova pra todo mundo, e principalmente pro seu filho, que você nunca foi digna de ser uma Abreu. E acredite, Cíntia... você não quer o Bairro Esperança inteiro sabendo o motivo real desse divórcio, quer?
Mariana não esperou resposta. Saiu, batendo a porta com firmeza.
Lá dentro, Cíntia ficou sozinha com o silêncio e a poeira. Ela olhou para o porta-retratos na sua mão. Com um grito abafado de frustração, ela colocou a foto de volta na estante, com força, trincando o vidro, mas sem quebrá-lo.
— Inferno de família — sussurrou ela, sentindo o peso da solidão começar a apertar.

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