A quarta-feira amanheceu com um sol que parecia ter acordado de mau humor, decidido a fritar cada habitante de Vitória.
No quarto que dividia (ou invadia) com Vinícius, Patrick abriu os olhos e desejou imediatamente fechá-los para sempre. Cada centímetro do seu corpo doía. Era uma dor democrática: atingia os braços, as pernas, as costas e até músculos que ele nem sabia que existiam, como os das orelhas.
Ele tentou se sentar, mas soltou um gemido que soou como uma porta velha rangendo.
— Ih, o robô tá enferrujado — comentou Vinícius, que já estava de uniforme escolar, amarrando o tênis. — A aula de Crossfit foi pesada, hein? Ou será que o "mercado asiático" te deu uma surra?
Patrick ignorou a provocação, concentrando-se na tarefa hercúlea de ficar em pé.
— Alta performance exige sacrifício, Vinícius. O corpo é um templo... que às vezes precisa ser demolido para ser reconstruído.
Ele pegou uma sacola plástica que escondera debaixo da cama na noite anterior. Dentro, havia um par de botas de couro velhas e gastas que pertenciam a Jerônimo (furtadas silenciosamente da sapateira do pai) e uma calça jeans que já tinha visto dias melhores. Era o seu "uniforme" para o segundo dia de inferno.
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No quarto ao lado, Mariana não estava muito melhor.
Ela acordou com a sensação de que havia uma escola de samba ensaiando dentro da sua cabeça. A luz que entrava pela fresta da cortina parecia laser.
— Nunca mais... — sussurrou ela, cobrindo o rosto com o travesseiro. — Nunca mais eu bebo cerveja barata pra arrancar confissão de ninguém.
Mas a dor de cabeça não era o pior. O pior eram os flashes. Flash 1: Ela elogiando os olhos dele. Flash 2: Ela tropeçando e sendo segurada por braços fortes. Flash 3: Aquele quase-beijo na escada. Flash 4: Ela dizendo "Você fala bonito, ogro".
Mariana gemeu de vergonha, chutando o edredom. Como ela ia olhar na cara dele agora? Ela, a investigadora implacável, tinha virado uma adolescente apaixonada depois de quatro long necks.
— Foco, Mariana. Foco — disse ela para si mesma, levantando-se zonza. — Você estava bêbada. Foi um lapso de julgamento. Ele ainda é um suspeito. Um suspeito... cheiroso. Droga.
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Enquanto isso, num escritório cinzento no centro da cidade, Fernando olhava para a tela do computador sem ver os números da planilha. Seu celular vibrava incessantemente sobre a mesa.
"Cíntia (Não Atender)" brilhava no visor.
Na quinta chamada, ele atendeu, escondendo-se atrás de uma pilha de pastas.
— O que foi, Cíntia? Eu tô no trabalho.
— Fernando! — A voz dela era estridente. — A EDP acabou de passar aqui! Eles iam cortar a luz! O aviso de corte tava na caixa de correio e você não pagou!
— Eu não paguei porque a conta venceu depois que eu saí de casa, Cíntia. A responsabilidade agora é...
— A responsabilidade é sua! A conta tá no nome do seu pai! Você quer que o Jerônimo fique com o nome sujo? Eu tive que implorar pro técnico não cortar, disse que tinha um bebê doente em casa!
— O Murilo nem tá aí, Cíntia! E ele tem oito anos!
— Não interessa! Fernando, resolve isso agora. Paga essa conta ou eu ligo pro seu pai e conto que o filhinho dele é um caloteiro.
A chamada encerrou. Fernando sentiu o estômago revirar. Ele olhou para a sala do supervisor. Se saísse agora, levaria uma advertência. Mas se não pagasse, o nome do pai iria para o Serasa.
Ele pegou o paletó.
— Chefe... — Fernando bateu na porta de vidro. — Vou ter que sair. Emergência familiar.
— De novo, Abreu? — O supervisor nem olhou para cima. — Cuidado. A fila de desempregado tá grande lá fora.
Fernando engoliu o sapo, baixou a cabeça e saiu, sentindo-se o menor homem do mundo.
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De volta ao Bairro Esperança, Patrick descia a rua lateral, mancando, tentando se manter nas sombras. Ele usava óculos escuros gigantes para esconder as olheiras e carregava a sacola com as botas do pai como se fosse contrabando.
Na esquina, Jadson o esperava, encostado num poste, fresco como uma alface.
— Bom dia, "consultor". — Jadson riu ao ver o estado do amigo. — Tá andando meio torto.
— É o ácido lático, Jadson. Acúmulo severo. — Patrick parou, ofegante. — Escuta... hoje a gente podia pegar leve, né? Tipo... pintar rodapé? Varrer a calçada?
Jadson deu um tapinha consolador (e doloroso) no ombro dele.
— Sonha, Patrick. Hoje é dia de laje. O caminhão de concreto chega daqui a pouco. A gente vai ter que espalhar, vibrar e alisar o concreto debaixo desse sol. É o pior dia da obra.
Patrick sentiu vontade de chorar.
— Laje? Jadson, eu não tenho estrutura física pra laje! Eu sou um homem de soft skills!
— Então prepara essa skills e a coluna, porque o Bigode tá com a pá na mão te esperando. E troca logo esse tênis por essa bota aí, antes que alguém veja.
Patrick sentou-se no meio-fio para trocar o calçado, resmungando palavrões que não combinavam com seu vocabulário corporativo.
Foi nesse momento infeliz que o portão da casa dos Abreu se abriu.
Mariana saiu, de óculos escuros e boné, indo para a farmácia comprar um Engov. Ela queria evitar o mundo, mas o destino tinha outros planos.
Ela viu os dois na esquina. Jadson, em pé, parecendo um monumento à saúde e ao trabalho braçal. E Patrick... sentado na sarjeta, tirando um tênis de marca e calçando... as botas velhas de pescaria do pai?
Mariana parou, escondida atrás de uma árvore. A dor de cabeça latejou, mas a curiosidade falou mais alto.
— O que diabos eles estão fazendo? — sussurrou ela.
Ela viu Patrick levantar, bater a poeira da calça velha e entregar a sacola com os tênis chiques para Jadson, que a guardou na mochila dele.
— Olha só... — Mariana semicerrou os olhos por trás das lentes escuras. — O Patrick tá entregando os tênis pro Jadson? Será que ele tá vendendo as roupas pra pagar dívida de jogo? Ou o Jadson tá cobrando "proteção"?
A teoria do golpe ganhou uma nova camada. Na cabeça fértil e ressacada de Mariana, Jadson agora não era apenas um golpista; era um agiota que aceitava tênis usados como pagamento.
— Eu sabia! — Ela concluiu, triunfante e tonta. — Aquele papinho de "construir lares" era fachada. Você tá extorquindo meu irmão, seu pedreiro de araque. E eu vou provar.
Enquanto os dois sumiam na direção da obra, Mariana esqueceu a farmácia. Ela deu meia-volta e entrou em casa correndo (o que fez sua cabeça protestar violentamente). Ela precisava de um plano. E precisava de Jonas.
— Alô, Jonas? — Ela mandou áudio assim que entrou no quarto. — Prepara o carro. A gente vai fazer uma tocaia.
CONTINUA...

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