quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 04

 


O ônibus da Águia Branca cortava a BR-101 com aquele zumbido monótono de motor a diesel e ar-condicionado no máximo. Lá fora, a paisagem capixaba passava como um borrão verde e marrom, mas Patrick Abreu não estava admirando a vista.

Sentado na poltrona da janela, ele ajeitava o colarinho da polo de marca (réplica de primeira linha comprada no Saara) e conferia o celular a cada cinco minutos. Não havia sinal, o que era um alívio. Cada vez que o aparelho vibrava, o coração de Patrick dava um salto, esperando uma mensagem de cobrança de algum "investidor" furioso do Rio de Janeiro ou, pior, de um agiota da Zona Oeste.

— Chegando em Vitória o sinal melhora — comentou o rapaz ao lado, fechando uma revista de palavras cruzadas.

Patrick virou o rosto devagar. O companheiro de viagem, que subira na parada de Campos dos Goytacazes, era o oposto dele. Enquanto Patrick tentava projetar uma imagem de "Faria Limer" de férias, o rapaz ao lado exalava simplicidade prática. Vestia uma camiseta básica cinza, calça jeans e tinha mãos calejadas de quem não ganhava a vida digitando em planilhas. Tinha uma expressão séria, quase severa, mas educada.

— É... eu sei — Patrick respondeu curto, voltando a olhar para a janela.

— Você é de lá? — O rapaz insistiu. Não parecia ser por chatice, apenas tédio de viagem.

— Sou. — Patrick suspirou, percebendo que o silêncio não seria uma opção. — Mas estava morando no Rio. Negócios.

— Rio de Janeiro... Cidade grande — o rapaz assentiu, respeitoso. — Trabalhava com o quê lá?

Patrick travou o maxilar. Com pirâmide financeira baseada em criptomoeda fantasma, pensou ele.

— Consultoria de investimentos — mentiu Patrick, com a fluidez de quem já repetiu aquilo mil vezes. — Mercado financeiro, ativos digitais... Sabe como é. Muito estressante. O Rio ficou pequeno para a minha visão de empreendedorismo, decidi trazer minha expertise de volta para o Espírito Santo.

— Entendi — o rapaz assentiu, embora parecesse não ter entendido nada, ou simplesmente não se importasse com "ativos digitais". — Eu sou do interior do Rio. Tô indo pra Vitória tentar a vida. Dizem que a construção civil lá tá forte.

Patrick soltou um "hum" desinteressado. Um peão de obra. Ótimo. Não era alguém que poderia investir no seu próximo esquema, mas servia para passar o tempo.

O ônibus começou a desacelerar, entrando na área urbana. A Ponte do Príncipe surgiu imponente, e a Rodoviária de Vitória apareceu logo em seguida, com seu caos habitual de malas, abraços e cheiro de salgado de lanchonete.

Ao desembarcarem, o calor úmido da cidade atingiu Patrick como um tapa. Ele puxou sua mala de rodinhas (que estava leve demais, contendo basicamente suas roupas e nenhum centavo), enquanto o rapaz ao lado jogava uma mochila de lona gasta sobre o ombro.

— Bom... boa sorte aí nos investimentos — disse o rapaz, estendendo a mão. — Eu sou Jadson. Jadson Meira.

Patrick apertou a mão dele, sentindo a firmeza do aperto.

— Patrick Abreu.

Jadson olhou em volta, coçando a nuca, parecendo meio perdido diante da movimentação da rodoviária.

— Ô Patrick, deixa eu te perguntar uma coisa, já que você é da área... Você sabe onde tem uma pensão ou um hotel barato por aqui? Mas barato mesmo, pra quem tá começando.

Patrick ia responder que não frequentava lugares baratos, mas seu estômago roncou e sua carteira estava vazia. O táxi até o Bairro Esperança custaria uns trinta ou quarenta reais. Dinheiro que ele preferia não gastar agora.

Os olhos de Patrick brilharam. Uma oportunidade.

— Olha, Jadson... O centro aqui é meio perigoso e caro. Mas eu estou indo para um bairro muito bom, familiar. Bairro Esperança.

— É longe?

— Uns vinte minutos. Lá tem a Dona Mirtes, ela aluga uns quartos nos fundos da casa dela. Coisa simples, mas limpa. E o preço é camarada.

Jadson pareceu aliviado.

— Rapaz, isso salvaria minha pele. Como eu chego lá? Tem ônibus direto?

— Tem, mas com essa mala aí... — Patrick apontou para a bagagem de Jadson, fazendo uma careta de quem avalia um risco. — Vamos fazer o seguinte: eu também estou indo pra lá. A gente pega um táxi e racha. Fica bom pra mim, fica bom pra você, e você já chega na porta da pensão sem se perder.

Jadson sorriu, um sorriso contido, mas grato.

— Fechado. Muito obrigado, viu? Deus preparou mesmo.

Eles caminharam até o ponto de táxi. Enquanto o motorista colocava as malas no porta-malas, Patrick se acomodou no banco de trás, sentindo o ar-condicionado do carro. Estava voltando para casa falido, fugido e com a reputação na lama no Rio de Janeiro. Mas, entrando no táxi com um desconhecido pagando metade da sua corrida, ele sentiu aquela velha faísca de confiança.

— O bairro é bom mesmo? — Jadson perguntou, olhando a cidade passar pela janela.

— O melhor — Patrick respondeu, relaxando no banco. — Todo mundo se conhece. Meus pais têm um bar lá. O Bar do Abreu. Fica na principal. É o point da região. Se você for ficar na Dona Mirtes, vai acabar parando lá pra tomar uma. A primeira é por minha conta.

Jadson assentiu, observando a cidade. Mal sabia ele que aquela promessa de "primeira por conta da casa" provavelmente seria cobrada pelo Sr. Jerônimo mais tarde.

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