A noite caiu sobre o Bairro Esperança, trazendo com ela a brisa do mar e o movimento habitual do Bar do Abreu. Diferente da segunda-feira morta, a terça trazia os clientes fiéis: o Seu Zé do jogo do bicho, a turma do futebol de várzea e os casais que queriam comer um tira-gosto barato.
No andar de cima, porém, a atmosfera era de enfermaria de guerra.
Patrick subiu o último degrau da escada de gatinhas. Literalmente. Ele se arrastou pelo corrimão, sentindo cada fibra do seu corpo gritar em protesto contra as oito horas de servente de pedreiro.
— Patrick? — Fernando apareceu no corredor, segurando um travesseiro e um lençol. Ele estava tentando montar uma "cama" decente no chão apertado do quarto de costura, entre manequins e carretéis de linha. — O que houve? Você foi atropelado?
Patrick ergueu-se com dificuldade, apoiando a mão na lombar como um senhor de noventa anos.
— Atropelado pela busca da excelência, meu irmão — gemeu Patrick, forçando um sorriso torto. — Fiz uma imersão de Biohacking e Crossfit Executivo hoje à tarde. É uma nova tendência de liderança: levar o corpo ao limite para expandir a mente. No pain, no gain.
— Sei... — Fernando olhou desconfiado para a camisa do irmão, que tinha uma mancha branca suspeita perto da gola (cimento que o banho de mangueira não tirou). — E expandiu a mente?
— Expandiu tudo. Principalmente as dores nas costas. — Patrick entrou na sala e desabou no sofá, soltando um "aaahhh" profundo. — Mas valeu a pena. O networking foi intenso.
Nesse momento, o cheiro de pizza invadiu o ambiente. Vinícius entrou na sala equilibrando duas caixas grandes de papelão.
— Chegou o rango! — anunciou o caçula. — Patrick, tu é o cara! Pizza de Quatro Queijos e de Calabresa com Catupiry! A mãe vai chiar que é "veneno industrializado", mas a gente come antes dela ver.
Patrick sorriu, orgulhoso. Ele tinha gastado setenta reais da sua diária de cem naquelas pizzas. Sobraram trinta. A dívida com o agiota continuava monstruosa, mas ver a cara de felicidade do irmão caçula e o alívio de Fernando (que estava comendo pão com manteiga há dois dias) valia o risco financeiro.
— É por minha conta — disse Patrick, acenando com a mão (e sentindo uma fisgada no ombro). — Dividendo distribuído é alegria compartilhada. Podem atacar.
Enquanto Fernando e Vinícius devoravam as fatias, Mariana saiu do banheiro, envolta numa toalha e com um turbante na cabeça. Ela parou, observando Patrick largado no sofá, com os olhos fechados e uma expressão de sofrimento.
Ela se aproximou, silenciosa como um gato. Inclinou-se perto da cabeça do irmão.
— Que cheiro é esse, Patrick? — perguntou ela.
Patrick abriu um olho, assustado.
— Cheiro? Cheiro de sucesso, Mari. De pizza.
— Não. — Ela farejou perto da orelha dele. — Cheiro de... terra molhada? Cal? Você andou rolando no chão?
— É argila terapêutica! — Patrick improvisou rápido, o coração disparando. — Parte do tratamento do spa. Esfoliação vulcânica. Muito chique.
Mariana estreitou os olhos. Argila, spa, pizza cara... A história parecia consistente com a de um rico excêntrico. Mas algo naquilo não encaixava. Ela olhou para a mancha na gola dele. Parecia muito com reboco de parede.
— Hum. — Ela se afastou, pegando uma fatia de pizza com a ponta dos dedos. — Aproveita sua pizza, "executivo". Eu vou descer. Tenho um trabalho a fazer.
— Trabalho? — Fernando perguntou de boca cheia. — Você arrumou emprego?
Mariana sorriu. Aquele sorriso perigoso que ela tinha treinado no espelho.
— Digamos que eu vou fazer uma auditoria de qualidade no bar. Tem um elemento suspeito rondando nossa família, e hoje eu vou arrancar a verdade dele.
Ela foi para o quarto se arrumar. Não vestiu sua roupa de balada habitual. Escolheu algo estratégico: um jeans que valorizava as curvas, mas parecia casual, e uma blusa preta de alcinha. Cabelo solto, maquiagem leve de "acordei linda assim". A isca estava pronta.
Lá embaixo, o Bar do Abreu estava animado. O som ambiente tocava um sertanejo universitário num volume agradável. Jerônimo tirava chope com maestria, e Ana Lúcia comandava a chapa, fritando porções de aipim.
Numa mesa de canto, longe da TV, estava Jadson.
Ele tinha tomado um banho decente na pensão, barbeado o rosto e vestido uma camisa polo azul-marinho (simples, mas limpa) e calça jeans. Estava cansado, mas era aquele cansaço bom de dever cumprido. Ele bebia uma cerveja gelada devagar, observando o movimento, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, parte de algo.
Até que uma sombra cobriu sua mesa.
— Posso sentar? — A voz era doce. Doce demais.
Jadson levantou os olhos e quase engasgou com o gole de cerveja.
Mariana estava parada ali, segurando uma long neck. Mas não era a Mariana agressiva da noite anterior. O olhar de desprezo tinha sumido, substituído por um interesse brilhante e, se ele não estivesse enganado, levemente sedutor.
— Ué... — Jadson limpou a boca com as costas da mão, desconfiado. — O bar é livre, "princesa". Mas achei que você preferisse sentar longe do "ogro".
Mariana riu, jogando o cabelo para trás e sentando-se na cadeira à frente dele. Ela cruzou as pernas, invadindo sutilmente o espaço pessoal dele.
— Ai, Jadson, desculpa por ontem. Eu estava estressada, TPM, sabe como é... — Ela mentiu com a fluidez de uma atriz de Hollywood. — Minha mãe me deu uma bronca. Disse que eu fui mal-educada com o amigo do Patrick. E a Dona Ana tem razão. A gente começou com o pé esquerdo.
Jadson a observou. Ele não era bobo. Ninguém muda da água para o vinho em vinte e quatro horas sem motivo. Mas, sendo homem e tendo sangue nas veias, era difícil manter a guarda alta quando a mulher mais bonita do bairro estava sorrindo para ele daquele jeito.
— Tudo bem — disse Jadson, cauteloso. — Águas passadas.
— Então... — Mariana inclinou o corpo para frente, apoiando o queixo na mão. — Me conta mais. O Patrick fala tanto de você. Diz que você é um "talento bruto". O que você faz exatamente? Além de carregar mala de executivo, claro.
Jadson sorriu de canto. A ironia ainda estava lá, escondida no elogio.
— Eu construo coisas, Mariana. Fundações. Levanto paredes. Garanto que a estrutura não caia na cabeça de ninguém.
Mariana piscou. Fundações. Estruturas. Na cabeça dela, aquilo era código para "Esquema de Pirâmide".
— Interessante... — ela murmurou, os olhos fixos nos dele. — E dá dinheiro isso? Construir "estruturas"? O Patrick parece que investe pesado nisso, né?
Jadson riu. Se ela soubesse que o "investimento pesado" do Patrick era carregar saco de cimento de cinquenta quilos nas costas...
— Dá pra viver. É suado, mas é honesto. O Patrick... bem, o Patrick tá aprendendo que não existe dinheiro fácil. Ele tá começando de baixo agora.
Mariana sentiu o coração acelerar. Aha! Ele admitiu! "Patrick tá aprendendo", "Começando de baixo". Isso confirmava sua teoria: Jadson era o mentor do golpe, e Patrick era o aprendiz que estava sendo sugado.
Ela precisava de mais. Precisava que ele confessasse que estava explorando o irmão.
— Sabe, Jadson... — Ela esticou a mão e tocou levemente no braço dele, sobre a mesa. A pele dele era quente e firme. Mariana sentiu um arrepio involuntário, mas ignorou. Foco na missão. — Eu admiro homens ambiciosos. Homens que sabem... manipular as oportunidades.
Jadson franziu a testa, olhando para a mão dela no braço dele. Aquele toque era macio. O perfume dela era inebriante. Mas a conversa estava estranha.
— Manipular? — Ele repetiu. — Eu prefiro dizer "aproveitar". Quando a massa tá no ponto, você tem que chapar na parede, senão seca.
— Exatamente! — Mariana sorriu, achando que ele estava usando outra metáfora criminosa. — E você acha que o Patrick é uma "massa" boa de trabalhar? Ou ele é muito mole?
Jadson soltou uma gargalhada genuína, lembrando da cena do Patrick com sacolas nos pés.
— Ah, o Patrick é meio mole sim. Mas com o tempo ele endurece. Eu tô dando um jeito nele. Hoje mesmo eu fiz ele suar a camisa. Ele reclamou, mas entregou o serviço.
Mariana recolheu a mão, chocada e triunfante. Ele admitiu! "Fiz ele suar", "Entregou o serviço". Jadson estava extorquindo o Patrick! Estava fazendo o irmão dela de gato e sapato!
A raiva voltou, mas ela a mascarou com um gole de cerveja.
— Nossa, Jadson. Você deve ser muito... dominante nos negócios. — Ela usou um tom de flerte, mas seus olhos scaneavam a reação dele. — Vamos pedir outra? Por minha conta. Eu quero saber todos os detalhes dessa sua "parceria" com meu irmão. Eu adoro histórias de... construção.
Jadson, inocente e começando a achar que talvez, talvez, ela estivesse realmente interessada nele (ou no trabalho dele), assentiu.
— Pode ser. Mas eu pago a minha.
— Que isso... — Mariana levantou a mão para chamar o pai. — Garçom! Desce mais duas aqui pro meu novo amigo! Vamos brindar ao... suor do Patrick.
Do balcão, Jerônimo e Ana Lúcia observavam a cena.
— Olha lá, Ana — sussurrou Jerônimo, limpando um copo. — A Mariana e o rapaz da obra. Tão conversando. E ela tá rindo.
— Eu disse — Ana Lúcia sorriu, satisfeita. — O santo bateu. Deixa eles. Quem sabe ela não toma jeito com um rapaz trabalhador?
Mal sabiam eles que, na mesa do canto, estava acontecendo um interrogatório disfarçado de encontro, e que Mariana Abreu estava prestes a embebedar o pedreiro para salvar a fortuna (inexistente) da família.

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