O sol da manhã entrava sem pedir licença pela janela da cozinha, iluminando as partículas de poeira que dançavam sobre a mesa de fórmica amarela. Eram seis e meia da manhã, horário em que a Casa dos Abreu costumava estar em silêncio, exceto pelos roncos de Jerônimo no quarto ao lado.
Mas, naquela segunda-feira, o cheiro de café fresco já invadia o corredor.
Ana Lúcia entrou na cozinha amarrando o robe de seda sintética, pronta para assumir seu posto de comando diante do fogão, mas parou bruscamente. Fernando estava lá. Ele vestia a mesma camisa amassada da noite anterior, mangas dobradas até os cotovelos, passando água quente no coador de pano com uma concentração cirúrgica.
— Nando? — Ana Lúcia piscou, confusa. — O que você está fazendo em pé, menino? Eu disse que ia fazer o café.
Fernando se virou, oferecendo um sorriso fraco que não alcançava os olhos.
— Não consegui dormir muito bem, mãe. E não queria dar trabalho. A senhora já faz tanta coisa... O mínimo que eu posso fazer é passar o café.
Ana Lúcia observou o filho. Era uma injustiça o que a vida — e a Cíntia — faziam com aquele rapaz. Se tirasse os óculos que viviam escorregando pelo nariz, fizesse a barba e dormisse oito horas seguidas sem a preocupação de pagar boletos, Fernando Abreu seria a cópia escarrada do Henry Cavill. Tinha o maxilar quadrado, os ombros largos que a camisa social barata tentava esconder e um porte de galã de novela das oito.
Mas, infelizmente, sua postura curvada e a aura de exaustão o faziam parecer apenas um Clark Kent que perdeu o último ônibus.
— Deixa disso. — Ela foi até ele, tomando o bule de sua mão com delicadeza, mas firmeza. — Sentar na mesa não é dar trabalho. Senta.
Fernando obedeceu, sentando-se e encarando a toalha de mesa florida.
— Eu preciso ir trabalhar daqui a pouco, mãe. Tenho uma reunião importante. Se eu conseguir fechar o balanço da filial de Jardim Camburi, talvez meu chefe me promova para Analista Sênior.
— Analista Sênior... — Ana Lúcia repetiu, colocando o pão de sal na cestinha, orgulhosa, embora não entendesse nada do que ele fazia. — Isso paga mais, né?
— Um pouco. Mas é a estabilidade, sabe? É a chance de crescer.
Nesse momento, um vulto desengonçado surgiu na porta. Vinícius, o caçula, entrou coçando a barriga, vestindo apenas uma samba-canção com estampa de Piu-Piu e os cabelos apontando para todas as direções cardeais. Ele bocejou, abriu um olho, viu Fernando e deu um pulo para trás, batendo o quadril na quina do armário.
— Eita (censurado)! — Vinícius gritou, esfregando o local da batida. — Que susto, maluco! Assombração a essa hora?
— Olha a boca, Vinícius! — Ana Lúcia repreendeu, batendo com a colher de pau na pia. — E vai vestir uma roupa, tenha modos! Seu irmão está tomando café.
— Ué, mas o que ele tá fazendo aqui? — Vinícius ignorou a ordem, puxando uma cadeira e se jogando nela, ainda coçando o olho remelento. Ele encarou Fernando com a curiosidade mórbida de um adolescente. — Segunda de manhã... Tu não devia tá lá na casa da madame? Foi demitido? A Cíntia te expulsou porque você esqueceu de comprar o pão integral dela?
Fernando encolheu os ombros, o rosto queimando.
— Não fui demitido, Vini. Só... estou passando uns dias aqui.
— "Uns dias"? — Vinícius pegou um pão e o rasgou com a mão. — Ih, o clima azedou? Deu ruim no paraíso?
— Vinícius, cala essa boca e come! — Ana Lúcia fuzilou o caçula com o olhar, tentando proteger o mais velho. — É assunto de adulto.
Antes que Vinícius pudesse soltar mais uma pérola, passos pesados e arrastados anunciaram a chegada do patriarca. Jerônimo entrou na cozinha já vestido com sua camisa polo de "trabalho", o cabelo penteado com gel e cheirando a loção pós barba barata.
— Bom dia, família — resmungou Jerônimo, puxando a cadeira da ponta. Ele olhou para a mesa farta, para Fernando encolhido e para Vinícius sem camisa, mas não comentou nada. — Vamos comer que o dia é curto e a luta é grande.
Todos se acomodaram. Ana Lúcia e Fernando trocaram um olhar cúmplice: a estratégia era manter a normalidade. Comer, sorrir, e deixar os problemas para depois do café.
— Vamos agradecer — disse Jerônimo, estendendo as mãos.
Fernando segurou a mão calejada do pai e a mão engordurada de manteiga de Vinícius. Ana Lúcia fechou a roda. Todos baixaram a cabeça.
— Senhor — começou Jerônimo, com a voz solene de quem discursa num palanque. — Agradecemos por esse pão de cada dia, pelo café que a Ana fez, e pela saúde dessa família.
"Amém", pensou Fernando, sentindo um leve alívio.
— E pedimos, Senhor — Jerônimo continuou, elevando o tom de voz —, que o Senhor dê muita força, mas muita força mesmo, para o meu filho Nando e para o meu netinho Murilo, para que eles consigam superar esse divórcio terrível que a cascavel da Cíntia jogou nas costas deles ontem à noite.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Fernando abriu os olhos, chocado. Ana Lúcia deu um chute na canela do marido por baixo da mesa. Vinícius, que estava com um pedaço de pão na boca, engasgou-se violentamente, tossindo farelos para todo lado.
— Divórcio?! — Vinícius gritou, assim que recuperou o ar, os olhos arregalados de empolgação. — Caraca! Eu sabia! Ela te largou mesmo? Vai ter partilha de bens? A gente fica com o Playstation do Murilo?
Fernando enterrou a cabeça nas mãos. O dia estava apenas começando.

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