Eram onze horas da manhã e a cozinha dos Abreu cheirava a alho refogado e coentro fresco. O chiado da panela de pressão ditava o ritmo do ambiente, enquanto Ana Lúcia e Mariana dividiam a bancada de mármore numa coreografia doméstica que só mães e filhas conhecem: uma descasca, a outra pica, ninguém se esbarra.
Mariana cortava tomates para o vinagrete em silêncio, concentrada em não estragar a manicure feita no dia anterior. Ana Lúcia mexia o arroz, mas seus olhos estavam distantes, presos na discussão do café da manhã.
— Mariana... — começou Ana, a voz mais suave do que mais cedo, mas com aquele peso característico de "precisamos conversar".
— Se for pra falar da minha carteira de trabalho em branco, mãe, o arroz vai queimar — Mariana respondeu sem tirar os olhos do tomate.
Ana Lúcia desligou o fogo e se virou, secando as mãos no avental.
— Não é sobre trabalho, filha. É sobre... a vida. O jeito que você leva as coisas.
Mariana soltou a faca com um baque seco na tábua de carne.
— Lá vem.
— Escuta, Mariana. Eu sou sua mãe. Eu te conheço. Sei que você tem bom coração, que é esperta. Mas o Bairro Esperança não é cego. E infelizmente, também não é mudo.
Ana Lúcia se aproximou, baixando o tom de voz, como se as paredes azulejadas tivessem ouvidos.
— Ontem encontrei a Dona Cida na padaria. Ela veio me perguntar se você tinha "se aquietado". Disse que a neta dela comentou que te viu saindo de três festas diferentes na mesma semana, cada vez com um grupo diferente de rapazes.
Mariana sentiu o rosto esquentar. A raiva subiu pelo pescoço.
— A neta da Dona Cida devia cuidar da própria vida, que é um tédio, em vez de fiscalizar a minha.
— O problema, minha filha — Ana Lúcia continuou, ignorando a defesa —, é o que elas concluem. A Cida usou palavras feias, Mariana. Palavras que mãe nenhuma gosta de ouvir sobre a filha. Falaram que você está... "muito solta". Que é "rodada".
A palavra pairou no ar, pesada e injusta. Mariana apertou a borda da pia, os nós dos dedos ficando brancos. Ela sabia que não era verdade. Ela gostava de dançar, de beber, de beijar na boca quando tinha vontade, mas sabia se respeitar. Sabia dizer não. Mas para a moralidade do Bairro Esperança, uma mulher livre era sinônimo de mulher pública.
Ela abriu a boca para gritar, para dizer que a mãe deveria defendê-la em vez de trazer o lixo da rua para dentro de casa. Mas quando olhou para Ana Lúcia, viu os olhos da mãe marejados. Não era julgamento no olhar dela; era medo. Medo de ver a filha sofrer na boca do povo.
Mariana respirou fundo, engolindo o orgulho.
— Mãe — disse ela, a voz firme, mas controlada. — A senhora sabe quem eu sou. A senhora me criou. A senhora acha que eu sou isso que a velha Cida diz?
Ana Lúcia balançou a cabeça negativamente, devagar.
— Não. Eu sei que não.
— Então pronto. — Mariana voltou a pegar a faca, atacando o tomate com um pouco mais de força do que o necessário. — Deixa elas falarem. A minha consciência é limpa. Eu não vou parar de viver minha juventude porque um bando de vizinha desocupada não tem louça pra lavar. Confia em mim, mãe. Só isso que eu te peço.
Ana Lúcia observou a filha por um momento, admirando aquela casca dura que Mariana tinha criado. Suspirou, vencida, mas aliviada.
— Tá bom. Eu confio. Mas vê se não chega às quatro da manhã todo dia, tá? Eu fico acordada rezando e o Jerônimo ronca que nem um trator.
Mariana deixou escapar um risinho. O clima pesado se dissipou como o vapor da panela.
— Pode deixar, Dona Ana. Vou tentar chegar às três e meia.
Elas riram. Mariana terminou de picar os tomates e jogou na tigela. Enquanto temperava com azeite, ela olhou de soslaio para a mãe. Se a conversa tinha ficado séria, era hora de mudar o foco. E ela tinha o alvo perfeito.
— Sabe, mãe... A senhora fica aí preocupada com a minha reputação, mas devia estar preocupada é com quem a gente bota dentro de casa.
Ana Lúcia franziu a testa, provando o sal do feijão.
— De quem você tá falando? Do Patrick?
— Não, o Patrick é doido mas é nosso. Tô falando daquele amigo dele. O tal do Jadson.
Ana Lúcia parou com a colher no ar.
— O rapaz de ontem? O que comeu o X-Tudo?
— Esse mesmo. — Mariana encostou no balcão, assumindo sua postura de detetive. — Mãe, a senhora não achou estranho? O cara cola no Patrick na viagem, vem pra cá sem um tostão, faz o Patrick pagar tudo... E ainda fica com aquele papinho de "sou humilde", "sou trabalhador".
— Ué, e ele parece trabalhador mesmo — defendeu Ana Lúcia, voltando a mexer a panela. — As mãos dele são grossas de serviço. E ele comeu com gosto, agradeceu olhando no olho. Gente ruim não olha no olho, Mariana.
— Ah, mãe, a senhora é muito coração mole! — Mariana bufou. — Golpista profissional faz curso de "olhar no olho". Eu tô avisando: esse cara viu que o Patrick voltou "rico" e tá querendo tirar proveito. A gente devia proibir ele de vir aqui.
Ana Lúcia riu, achando graça da teoria da conspiração da filha.
— Deixa de ser maluca, menina. O rapaz é simples. Ele me lembro o Jerônimo quando a gente namorava, aquele jeito meio bruto mas educado.
Mariana fez uma careta de nojo.
— Quéisso, mãe! Comparar o pai com aquele ogro? O pai pelo menos tem charme. Esse Jadson tem o carisma de uma porta de aço.
— Sei não... — Ana Lúcia desligou o fogo do feijão e piscou para a filha. — Às vezes a gente implica demais com quem a gente não consegue decifrar. Mas fica tranquila, Sherlock Holmes. Se ele tentar roubar o Patrick, a gente solta você em cima dele.
Mariana sorriu, afiando a faca no ar de brincadeira.
— Pode deixar. Eu tô de olho. Se aquele "Jadson" der um passo em falso, eu descubro.
CONTINUA...

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