segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 07

 


Mariana desceu a ladeira que separava a casa de Cíntia da rua principal pisando tão forte que seus saltos ameaçavam perfurar o asfalto. Se raiva gerasse eletricidade, ela sozinha poderia iluminar o Bairro Esperança por uma semana.

— Jararaca... Ingrata... Despeitada... — ela murmurava uma ladainha de ofensas, gesticulando para o ar.

Para evitar passar na frente da padaria e ter que cumprimentar vizinhos fofoqueiros, ela cortou caminho por um beco lateral, uma viela estreita, mas pavimentada, onde os muros eram baixos e todo mundo sabia o que o vizinho estava cozinhando para o jantar.

— Epa, epa! Vai abrir um buraco no chão desse jeito, Mari?

Mariana nem diminuiu o passo, mantendo a cabeça baixa e os punhos cerrados.

— Não enche, Jonas. Hoje eu não tô boa.

Mas o dono da voz não desistiu. Uma mão grande e quente segurou suavemente o braço dela, obrigando-a a parar. Mariana bufou e levantou os olhos, pronta para xingar, mas sua expressão suavizou instantaneamente.

Jonas Ramos estava parado no portão de sua casa, sem camisa, com uma toalha jogada no ombro e segurando uma mangueira. Aos 24 anos, ele era o orgulho estético da rua. Alto, ombros largos, abdômen definido de quem passava duas horas na academia de bairro e um sorriso que desarmava qualquer defesa. Ele tinha aquela energia de cachorro grande e bobo: leal, carinhoso e incapaz de fazer mal a uma mosca. Era o sonho de consumo de nove entre dez mães do bairro para casar com suas filhas.

Para Mariana, ele era "O" Jonas. O ombro amigo, o parceiro de fofoca e, ocasionalmente, algo mais, quando a carência batia forte. Mas casar? Nem pensar. Jonas era bonzinho demais. Faltava aquele tempero de perigo que ela, infelizmente, costumava gostar.

— O que foi que aconteceu? — Jonas perguntou, o sorriso desaparecendo para dar lugar a uma preocupação genuína. Ele desligou a torneira da mangueira. — Quem eu tenho que bater?

Mariana suspirou, sentindo a tensão nos ombros diminuir.

— Ninguém, Jonas. Quer dizer, vontade não falta. É a Cíntia.

— Ih... O que a madame fez dessa vez?

Mariana encostou-se no muro chapiscado da casa dele e desembuchou. Contou tudo: o divórcio, a expulsão do Fernando, a cara de pau da ex-cunhada varrendo a casa como se nada tivesse acontecido e a ameaça que ela mesma fizera.

Jonas escutava atento, balançando a cabeça em desaprovação nos momentos certos, fazendo exatamente o que se espera de um amigo perfeito.

— Caramba, Mari... O Nando não merece isso. O cara é um santo.

— Pois é! — Mariana exclamou, jogando as mãos para o alto. — Mas santo em casa de cobra vira oferenda, né? Pelo menos eu botei moral. Quero ver ela não aparecer no bar hoje.

— Você é uma figura, Mari — Jonas sorriu, aquele sorriso de "Golden Retriever" que fazia os olhos dele se fecharem um pouco. Ele passou a mão no braço dela num carinho consolador. — Sua família tem sorte de ter você defendendo o gol.

Mariana sorriu, sentindo-se validada. A raiva de Cíntia começava a dar lugar à fofoca fresca.

— Ah, e tem mais uma. O Patrick voltou.

Os olhos de Jonas se arregalaram.

— O Patrick? Do Rio? O milionário?

Mariana soltou uma risada nasalada, revirando os olhos.

— "Milionário"... Ele diz que sim, né? Chegou todo todo, contando vantagem, falando de "cripto-não-sei-o-quê". Mas, Jonas... você precisava ver a figura que veio com ele.

— Veio acompanhado? Namorada?

— Que nada. Um tal de Jadson. Um carioca — Mariana fez aspas com os dedos, carregadas de desdém — que o Patrick catou na rodoviária ou no ônibus. O cara é um ogro. Grosso, mal-vestido, me chamou de "princesa" com uma cara de deboche que me deu vontade de jogar minha Coca-Cola nele.

Jonas riu, passando a mão no cabelo molhado.

— Ué, mas por que ele veio junto?

Mariana deu de ombros.

— Sei lá. O Patrick pagou de generoso, disse que ia ajudar o cara... Mas cá entre nós? — Ela baixou o tom de voz, como se contasse um segredo de estado. — O cara colou no Patrick assim que viu que meu irmão tinha grana. Certeza que é interesseiro. Deve ter visto o relógio do Patrick, as conversas sobre investimento... Tá querendo tirar uma casquinha da fortuna dos Abreu.

Jonas soltou uma gargalhada alta.

— Coitado do Patrick. Mal chegou e já tem urubu rondando a carteira dele?

— Pois é! — Mariana riu junto, achando a teoria genial. — Mal sabe esse tal de Jadson que aqui no Bairro Esperança a gente sente cheiro de pilantra de longe. Se ele acha que vai viver às custas do meu irmão, tá muito enganado.

Os dois riram, cúmplices, completamente alheios ao fato de que, na verdade, fora Jadson quem pagara o táxi e que a "fortuna" de Patrick não comprava nem uma coxinha na padaria da esquina.


Enquanto isso, três ruas dali, num quartinho simples de fundos pintado de cal branco, Jadson soltou a mala no chão e levou a mão à orelha esquerda.

— Ai! — ele reclamou, esfregando o lóbulo que estava subitamente vermelho e quente.

Dona Mirtes, uma senhora baixinha e simpática que cheirava a talco, estava abrindo a janela para arejar o ambiente. Ela se virou ao ouvir a exclamação.

— O que foi, meu filho? Mosquito?

— Não, dona Mirtes. Minha orelha... Começou a queimar do nada. Tá pegando fogo.

A senhora deu um sorrisinho supersticioso.

— Ih... Orelha esquerda queimando? É gente falando mal de você. E falando com vontade, viu?

Jadson franziu o cenho, confuso.

— Falando mal de mim? Mas eu acabei de chegar na cidade, Dona Mirtes. Não conheço viva alma aqui, tirando o rapaz do táxi. Quem ia perder tempo falando mal de um desconhecido?

— Ah, meu filho, o povo fala... — Mirtes abanou a mão. — Às vezes é alguém que não foi com a sua cara de graça.

Jadson balançou a cabeça, rindo da crendice, mas a orelha continuava pulsando. A imagem da garota loira e abusada do bar veio à sua mente por um segundo — "Princesa", pensou ele com ironia —, mas ele logo afastou o pensamento. Ela era irmã do cara rico; devia estar preocupada com qual sapato comprar, e não com um peão de obra como ele.

— Deve ser minha mãe preocupada no interior — concluiu Jadson. — Orelha de mãe queima quando o filho tá longe, né?

— Deve ser, meu filho. Deve ser. — Dona Mirtes sorriu, embora soubesse diferenciar bem uma "queimação de mãe" de uma "queimação de raiva". — Fica à vontade. O banheiro é ali fora.

Jadson agradeceu e começou a tirar suas poucas roupas da mala, sem saber que, a três ruas dali, seu nome estava sendo arrastado na lama por uma "amizade colorida" cheia de teorias da conspiração.

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