Eram quase seis da tarde quando o sol tingiu o céu de Vitória com tons de roxo e laranja, mas Fernando Abreu não conseguia apreciar a beleza do crepúsculo. Ele caminhava pela calçada segurando a mochila do Homem-Aranha de Murilo em uma mão e a mão pequena do filho na outra.
— Mas pai, hoje é segunda — Murilo questionou, pulando para não pisar nas linhas da calçada. — Segunda não é dia de dormir na vovó. A mãe sabe?
Fernando engoliu o nó na garganta. A inocência da pergunta doía mais do que qualquer ofensa que Cíntia tivesse proferido na noite anterior.
— Sabe, campeão. Sabe sim — mentiu Fernando, forçando um tom animado que não sentia. — É que... o papai e a mamãe precisam resolver umas coisas chatas de adulto na casa, sabe? Pintura, dedetização... Então você vai tirar umas mini-férias na casa dos avós.
Os olhos de Murilo brilharam.
— Férias? Vai ter bolo de cenoura? O tio Vini vai deixar eu jogar no PC dele?
— Vai ter bolo, vai ter videogame, vai ter tudo. Só não pode bagunçar o ateliê da vovó, combinado?
— Combinado! — O menino apertou o passo, puxando o pai, ansioso pela "aventura", sem saber que sua vida estava mudando para sempre naquele trajeto de três quarteirões.
No Bar do Abreu, o clima era o oposto da alegria de Murilo.
Como era segunda-feira, o estabelecimento estava fechado. As portas de aço estavam baixadas, deixando apenas uma fresta na parte inferior para ventilação. Lá dentro, as luzes principais estavam apagadas, e apenas a iluminação amarelada da cozinha e de um abajur no balcão criavam sombras longas sobre as mesas empilhadas.
Parecia um bunker de guerra.
Ana Lúcia andava de um lado para o outro, torcendo um pano de prato nas mãos.
— Eu não devia ter deixado você ir lá, Mariana — repetia Ana Lúcia pela décima vez. — Você tem a língua solta demais. A Cíntia é vingativa. Se ela resolver proibir o Fernando de ver o menino só de birra porque você foi lá desaforar?
Sentada em um engradado de cerveja, Mariana lixava a unha (que parecia ser sua atividade terapêutica favorita) com uma calma irritante.
— Mãe, relaxa. A Cíntia late, mas não morde se a gente mostrar os dentes. — Mariana soprou o pó da unha. — Ela precisava de um choque de realidade. O Fernando é muito passivo, alguém tinha que defender a honra da família.
— Honra da família... — Jerônimo resmungou, encostado no balcão, com os braços cruzados. — A gente só quer resolver isso em paz. Mas a Mari tem razão numa coisa, Ana: não dá pra deixar a Cíntia pisar na gente.
— Eu só não quero confusão na frente do Murilo — decretou Ana Lúcia, parando de andar ao ouvir o som da porta de aço sendo erguida.
Todos congelaram.
Fernando entrou, curvando-se para passar pela abertura, seguido por um Murilo saltitante.
— Vovó! Vovô! — O menino correu e se jogou nas pernas de Ana Lúcia.
A matriarca mudou a expressão de preocupação para "vovó doce" em milésimos de segundo.
— Oi, meu amor! Que cheiroso que você tá! — Ela o abraçou forte, talvez forte demais, tentando protegê-lo do clima pesado da sala.
— Cadê o tio Vini? — Murilo perguntou, olhando em volta. — O pai disse que eu podia jogar.
Jerônimo pigarreou e olhou para a escada, onde Vinícius descia estrategicamente naquele momento, com o celular na mão.
— E aí, moleque! — Vinícius saudou, fazendo um toque de mão complexo com o sobrinho. — Bora subir? Instalei um jogo novo de corrida que tu vai pirar. Mas tem que ser agora, antes que a vovó mande a gente tomar banho.
— Bora! — Murilo gritou, já correndo para a escada.
— Murilo! — Fernando chamou, antes que o filho subisse. O menino parou no degrau e olhou para trás. Fernando sorriu, triste. — Te amo, filho.
— Também te amo, pai. Traz um refri pra gente! — E sumiu escada acima, seguido por Vinícius, que piscou para o pai, indicando que a missão de distração estava cumprida.
O silêncio voltou a reinar no bar assim que os passos no andar de cima cessaram.
Fernando soltou a mochila do filho em cima de uma mesa e suspirou, tirando os óculos para limpar as lentes na camisa. Foi só então que ele focou na figura sentada num canto mais escuro, perto da estufa de salgados vazia.
— Patrick?
Patrick levantou-se e caminhou até o irmão, abrindo os braços.
— E aí, Nando.
Fernando franziu a testa, recolocando os óculos, genuinamente confuso.
— Você... voltou? O que aconteceu no Rio? Aconteceu alguma coisa?
Patrick abraçou o irmão mais velho. Um abraço rápido, de quem foge de intimidade emocional, mas firme.
— Esquece o Rio, Fernando. Esquece meus investimentos — disse Patrick, afastando-se e colocando as mãos nos ombros do irmão. Ele usou seu melhor tom de vendedor para desviar o foco. — O assunto aqui é você. Eu soube da bomba. Você é a nossa preocupação agora. Minha vida tá ótima, tá tudo no esquema, mas a prioridade é a família. Tamo junto, beleza?
Fernando assentiu, cansado demais para questionar a vaguidão da resposta ou as roupas de marca duvidosa do irmão.
— Valeu, Patrick. Eu... eu nem sei o que dizer.
— Não diz nada. Se prepara — avisou Mariana, que tinha se levantado e olhava fixamente para a porta de aço entreaberta.
Do lado de fora, o som de um carro parando e uma porta batendo com força cortou o ar. O ruído de saltos batendo na calçada cimentada veio em seguida. Rítmicos. Agressivos.
Ana Lúcia respirou fundo e cruzou as mãos na frente do avental. Jerônimo endireitou a postura. Patrick recuou um passo para as sombras, preferindo ser observador. Fernando travou o maxilar.
A silhueta de uma mulher apareceu na fresta da porta. Ela se abaixou com elegância forçada e entrou.
Cíntia estava impecável. Cabelo escovado, maquiagem feita, vestindo uma blusa de seda e calça jeans justa. Ela segurava a bolsa de marca (presente de Fernando em 10 parcelas) como se fosse um escudo.
Ela se ergueu, sacudiu o cabelo e varreu o ambiente com um olhar de desprezo, ignorando Ana, Jerônimo e Patrick, e fixando os olhos frios em Fernando.
— Espero que isso seja rápido — disse Cíntia, a voz cortante como vidro. — Esse lugar cheira a gordura velha mesmo fechado.
Ninguém respondeu de imediato. O ar no Bar do Abreu ficou tão denso que uma faísca poderia explodir o quarteirão inteiro.

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