O Palio prata de Jonas estacionou silenciosamente atrás de uma caçamba de entulho, a cerca de cinquenta metros do canteiro de obras do "Solar das Acácias". O ar-condicionado do carro lutava bravamente contra o calor das duas da tarde, mas a tensão dentro do veículo fazia a temperatura parecer dez graus mais alta.
— Posição estabelecida — anunciou Jonas, puxando o freio de mão. Ele olhou para Mariana no banco do passageiro. Ela usava óculos escuros enormes e um lenço na cabeça, parecendo uma mistura de Grace Kelly com uma fugitiva da Interpol. — Mari, tem certeza que isso é necessário? A gente parece dois psicopatas.
— Shhh! — Mariana o calou, baixando o vidro apenas um centímetro. — Silêncio no front, soldado. Me passa o binóculo.
— Eu não tenho binóculo, Mariana. Eu disse que ia ajudar meu pai com o chuveiro, não observar pássaros.
— Droga de amadorismo... — resmungou ela, puxando o próprio celular. — Vou ter que usar o zoom digital. Se a imagem pixelar, a culpa é sua.
Ela ergueu o aparelho, apontando a câmera para a estrutura de concreto exposta ao sol. Na tela do celular, a imagem tremida mostrava o caos habitual de uma obra: homens andando de um lado para o outro, betoneiras girando e poeira subindo.
— Cadê... Cadê... — Mariana murmurava, deslizando o dedo na tela para ajustar o foco. — Achei!
No terceiro andar, uma figura esquálida e curvada tentava equilibrar um carrinho de mão cheio de massa.
— Meu Deus... — Mariana cobriu a boca com a mão livre. — Olha aquilo, Jonas! Olha o estado dele!
Jonas esticou o pescoço, tentando ver.
— É o Patrick? Ele tá... ele tá usando as botas do seu pai mesmo? E aquela calça... parece que ele saiu de um filme de naufrágio.
Lá em cima, a realidade era brutal. Patrick sentia que seus braços tinham sido substituídos por gelatina. Ele empurrou o carrinho, tropeçou num pedaço de madeira e quase virou a carga preciosa.
Jadson, que estava logo atrás com uma régua de alumínio na mão, correu para segurar o carrinho antes que ele tombasse. Ele gesticulou vigorosamente, apontando para o joelho de Patrick e depois para as costas, gritando instruções sobre postura para o "sócio" não travar a coluna de vez.
Legenda da Realidade: Jadson: "Dobra o joelho, Patrick! Usa a perna, não as costas! Senão você não chega vivo em casa!"
Legenda na Cabeça de Mariana: Jadson: "Seu inútil! Se derrubar esse cimento, eu dobro a sua dívida! Trabalhe direito, escravo!"
Dentro do carro, Mariana arfou.
— Você viu?! — gritou ela. — Ele ameaçou o Patrick com uma barra de metal! Ele tá gritando na cara do meu irmão!
— Mari, calma. — Jonas franziu a testa. — Parece que ele só tá ensinando a segurar o carrinho. O Patrick é meio desengonçado, você sabe...
— Ensinando? Jonas, o Patrick tá tremendo! Olha lá!
De fato, Patrick largou o carrinho e se apoiou numa coluna, escorregando até sentar no chão de concreto quente. Ele estava hiperventilando, o rosto vermelho como um pimentão, a língua quase para fora. O calor e o esforço tinham cobrado o preço. Ele estava à beira de um desmaio.
Jadson viu o estado do amigo. Preocupado com a insolação, ele largou a régua, pegou um balde de água que estava ali para molhar os tijolos e, num gesto de emergência, jogou a água sobre a cabeça e o tronco de Patrick para resfriá-lo.
Patrick engasgou com o choque térmico, tossindo e balançando os braços, mas logo fez um sinal de "joinha", agradecendo o refresco.
Mas, de longe, através da lente de um celular e do filtro do preconceito, a cena foi outra.
Interpretação de Mariana: O carrasco (Jadson) vendo o prisioneiro (Patrick) cair de exaustão, joga um balde de água suja nele para acordá-lo e forçá-lo a trabalhar mais. Tortura pura. Waterboarding de canteiro de obra.
— NÃO! — Mariana gritou, batendo no painel do Palio com tanta força que o GPS caiu. — ISSO JÁ É DEMAIS!
— O que foi? O que ele fez? — Jonas perguntou, assustado.
— Ele jogou água no Patrick! Igual fazem com prisioneiro de guerra! Ele tá humilhando meu irmão, Jonas! Ele tá tratando o Patrick feito bicho!
Mariana destravou a porta do carro. Seus olhos soltavam faíscas. A "investigadora" tinha dado lugar à "irmã leoa".
— Mari, espera! — Jonas segurou o braço dela. — Pensa um pouco! Por que o Patrick se sujeitaria a isso? Ele é adulto! Se fosse extorsão, ele podia ir na polícia!
— O Jadson deve ter ameaçado a gente! — Mariana rebateu, soltando-se do aperto dele. — Deve ter dito que ia fazer algo com o Murilo, ou com o bar! Chantagem emocional! O Patrick tá se sacrificando pela família e aquele ogro tá lá, rindo e jogando água nele!
— Mari, olha o tamanho daquele mestre de obras ali perto. Se a gente entrar lá...
— A gente nada. Eu vou. Você fica aí sendo racional e covarde. Eu vou salvar meu irmão.
Ela empurrou a porta e saltou do carro. O calor do asfalto subiu pelas pernas dela, mas a raiva a impulsionava.
— Mariana! Volta aqui! — Jonas gritou, desligando o carro e saindo correndo atrás dela. — Droga! Eu sabia que ia dar ruim!
Mariana não ouviu. Ela marchou em direção ao portão de tapumes da obra, seus saltos (sim, ela foi de salto anabela para uma tocaia) batendo firmes no chão. Ela ajeitou os óculos escuros, respirou fundo e preparou o grito.
Lá em cima, Patrick, ensopado e recuperando o fôlego, olhou para baixo e viu um ponto loiro familiar invadindo o perímetro. Seus olhos se arregalaram por trás das lentes sujas de cimento.
— Jadson... — Patrick sussurrou, a voz falhando. — Código Vermelho. A águia pousou. E ela parece furiosa.
Jadson olhou para baixo e viu Mariana gesticulando para o porteiro da obra, com Jonas logo atrás tentando puxá-la.
— Ih, rapaz... — Jadson limpou o suor da testa. — A princesa veio resgatar o dragão. Ou matar ele. Se esconde, Patrick. Eu seguro a bronca.
Mas era tarde demais. O grito de Mariana subiu três andares, cortando o som da betoneira:
— JADSON MEIRA! DESCE AQUI AGORA SEU AGRESSOR DE PLAYBOY!

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