segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 18

 


A casa de Jonas Ramos ficava a duas ruas do Bar do Abreu, mas parecia estar em outro fuso horário. Era uma residência térrea, de tijolinhos à vista pintados de branco encardido, com um jardim na frente onde a grama crescia num ritmo lento e ordenado.

Por dentro, o ambiente era o oposto do sobrado dos Abreu. Não havia cheiro de refogado, nem gritaria, nem música sertaneja. Havia o cheiro de cera líquida e o som da televisão ligada num programa policial sensacionalista.

Eustáquio Ramos, 50 anos, estava afundado no sofá de corvim marrom, que já tinha o formato exato do seu corpo moldado na espuma. Viúvo há dez anos, Eustáquio gerenciava a casa e a vida do filho único com a rigidez de um sargento reformado (embora fosse aposentado dos Correios).

Sobre a mesinha de centro, ao lado do controle remoto e de um copo de água, o celular de Jonas vibrou.

A tela acendeu, iluminando a sala penumbrosa.

Nova Mensagem de Voz: Mariana Abreu (00:12)

Os olhos de Eustáquio, que até então acompanhavam uma perseguição policial na TV, desviaram para o aparelho. Suas sobrancelhas grisalhas se juntaram numa linha única de desaprovação.

— Mariana Abreu... — resmungou ele. — Aquela bisca.

Ele esticou o braço e pegou o celular do filho. Eustáquio sabia a senha (0000), porque em sua concepção, "quem não deve, não teme". Ele desbloqueou o aparelho e encarou o ícone verde do WhatsApp.

Sem ouvir o áudio, ele pressionou o dedo sobre a mensagem, selecionou a lixeira e confirmou: Apagar para mim.

Ele bloqueou a tela e devolveu o celular à mesa, exatamente na mesma posição, com a consciência tranquila de quem acaba de salvar o filho de uma "má influência".

Segundos depois, Jonas entrou na sala, secando o cabelo com uma toalha. Ele vestia uma bermuda jeans e camiseta, exalando aquele cheiro de banho tomado.

— Pai, viu meu celular? — perguntou Jonas, olhando em volta. — Achei que tinha deixado carregando no quarto.

Eustáquio não tirou os olhos da TV.

— Tá aí na mesa. Tocou agorinha. Deve ser cobrança da operadora.

Jonas pegou o aparelho, desbloqueou e franziu a testa. Nenhuma notificação. Estranho. Ele ia perguntar algo, mas o celular vibrou em sua mão, quase o assustando.

Mariana Abreu: Áudio (00:08) Mariana Abreu: JONAS! CADÊ VOCÊ?! É URGENTE!

Jonas olhou para o pai, que permanecia impassível, e depois para a tela. Ele clicou no botão de chamar imediatamente.

Aleluia! — A voz de Mariana estourou no ouvido dele antes mesmo do "alô". — Você tá surdo? Eu mandei um áudio explicando o plano tático e você ignorou!

— Calma, Mari. — Jonas riu, indo para a cozinha para fugir do volume da TV (e dos ouvidos do pai). — Plano tático? O que aconteceu? Invadiram o Capitólio?

Pior. O golpe tá em andamento, Jonas! Eu vi! Eu vi com meus próprios olhos! O Patrick entregando os tênis dele pro Jadson no meio da rua!

— Tênis? — Jonas abriu a geladeira, pegando uma garrafa de água. — O Patrick tá vendendo muamba agora?

Não, seu lerdo! É extorsão! O tal Jadson deve estar cobrando dívida e o Patrick tá pagando com roupa porque não tem dinheiro! A gente precisa seguir eles. Pega o carro. Agora.

Jonas encostou no balcão, sorrindo. Ele adorava quando Mariana entrava nesse modo "filme de ação". Era absurdo, era dramático, mas era a coisa mais divertida que acontecia na vida monótona dele.

— Mari, eu ia ajudar meu pai a consertar o chuveiro...

O chuveiro espera. A honra da família Abreu não! Jonas, por favor... Eu preciso do meu Golden Retriever de guarda. Vai deixar eu ir sozinha pra uma obra cheia de homens brutos e perigosos?

Golpe baixo. Ela sabia exatamente onde apertar.

— Tá bom, tá bom. — Jonas suspirou, rendido. — Passo aí em dez minutos. Mas se for alarme falso, você me paga um açaí.

Fechado. Traz binóculos se tiver. Beijo!

Jonas desligou, ainda rindo, e voltou para a sala pegando a chave do carro.

— Vai sair? — A pergunta de Eustáquio veio seca, como um tiro de festim.

— Vou, pai. Dar uma volta.

— Com a filha do Jerônimo, né? — Eustáquio virou o rosto, finalmente encarando o filho. — Eu ouvi a voz dela gritando no telefone. Essa menina não tem modos.

— Ela é animada, pai. Só isso.

— Animada... — Eustáquio bufou. — Antigamente a gente tinha outro nome pra isso. Jonas, você é um rapaz direito. Tem futuro. Essa garota é... complicada. A boca do povo não perdoa. Ela vive em festa, não trabalha, não estuda... O que você acha que vai ganhar andando com ela?

Jonas parou na porta. A postura relaxada dele enrijeceu. Ele respeitava o pai, mas aquele discurso já estava velho.

— Eu ganho a companhia da minha melhor amiga, pai. — Jonas respondeu, a voz calma, mas firme. — E o que o povo fala, não me interessa. Eu conheço a Mariana de verdade. A senhora Cida da padaria não conhece.

— Você tá perdendo seu tempo — insistiu Eustáquio, voltando a olhar para a TV, amargo. — Mulher assim só serve pra dar dor de cabeça. Depois não diga que eu não avisei.

— Tchau, pai. Volto pro jantar.

Jonas saiu, fechando a porta com cuidado para não bater.

Na sala, o silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelas sirenes do programa policial. Eustáquio ficou olhando para a porta fechada por um longo minuto. A expressão dele não era apenas de ranzinzice; era de preocupação. Ele via o filho se envolvendo cada vez mais com "aquela gente barulhenta" e sentia que estava perdendo o controle.

— Não vai prestar... — murmurou ele.

Com um suspiro pesado, Eustáquio desligou a TV. O reflexo preto da tela mostrou um homem sozinho numa sala vazia. Ele não gostava daquilo.

Decidido, Eustáquio levantou-se do sofá. Foi até o quarto, trocou a camisa de ficar em casa por uma polo listrada, penteou os poucos cabelos que lhe restavam e pegou a carteira.

Se o filho não ia ouvir por bem, talvez ele precisasse ver com os próprios olhos o que estava acontecendo. Ou talvez Eustáquio tivesse seu próprio destino misterioso naquela tarde de quarta-feira.

Ele trancou a casa e saiu caminhando pela rua, na direção oposta à que Jonas tinha ido, mas com a mesma determinação no passo.

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