quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 10

— Guarda-costas? — Jadson franziu a testa, confuso, limpando o suor do pescoço. — Moça, eu sou pedreiro. A única coisa que eu guardo é cimento e tijolo.

Mariana soltou uma risada seca, cruzando os braços e bloqueando a entrada.

— Aham. E o Patrick é astronauta. Conta outra. Vai dizer que você não veio atrás do investidor pra pedir um empréstimo? Ou pra cobrar aquele táxi que você pagou "sozinho"?

Antes que Jadson pudesse responder — ou entender por que diabos aquela garota loira o odiava tanto de graça —, um vulto passou correndo por trás de Mariana.

— JADSON! MEU CAMARADA! — Patrick surgiu na porta, suando frio, com um sorriso de pânico estampado no rosto. Ele empurrou Mariana levemente para o lado (recebendo um beliscão em troca) e puxou Jadson para dentro com um vigor exagerado. — Que bom que você veio! Eu estava agorinha mesmo falando de você!

— Tava? — Jadson e Mariana perguntaram ao mesmo tempo, em tons completamente diferentes.

— Tava! — Patrick mentiu, guiando Jadson para uma mesa longe da família, mas Jerônimo já tinha se aproximado, curioso. — Pai, mãe, esse é o Jadson. Um... um talento bruto que eu descobri na viagem. Um rapaz com mindset de crescimento!

— Acho que já o vimos mais cedo, não? — Jerônimo perguntou.

— Boa noite — disse Jadson, tirando a mochila das costas e acenando para os donos do bar. — Desculpa incomodar. O Patrick disse que aqui tinha comida boa.

— Incomoda nada! — Ana Lúcia, que já estava com a espátula na mão atrás do balcão, sorriu. O instinto maternal dela apitava sempre que via um homem magro e com cara de fome. — Senta aí, menino. O bar tá fechado pra balanço, mas a chapa tá quente. O que você vai querer?

— O que a senhora tiver de mais sustança, dona. Tô desde o café da manhã só com uma coxinha no estômago.

— Sai um X-Tudo Completo Especial da Casa! — Ana Lúcia anunciou, já jogando os hambúrgueres na chapa, fazendo aquele chiado delicioso de gordura fritando.

Mariana voltou para o seu engradado de cerveja, mas virou o corpo para ficar de frente para a mesa onde Jadson se sentou. Ela o observava como um gavião observa um rato.

Patrick, nervoso, sentou-se ao lado de Jadson.

— Então, Jadson... — Patrick falou baixo, olhando para os lados. — Sobre aquela grana do táxi... O sistema do banco ainda tá fora do ar. Bug do milênio atrasado, sabe? Mas amanhã sem falta eu te transfiro.

Jadson olhou para o "amigo rico". Algo ali não cheirava bem, e não era o bacon fritando. Mas ele estava cansado demais para discutir.

— Tranquilo, Patrick. Mas não enrola, preciso pagar a dona Mirtes.

Enquanto esperavam o lanche, Jadson notou o homem de óculos sentado na outra mesa, com a cabeça baixa e uma expressão de quem carregava o mundo nas costas. Era Fernando.

— Noite difícil? — Jadson perguntou, num tom solidário, de um trabalhador para outro.

Fernando levantou o olhar, surpreso por ser notado.

— A pior de todas. E a sua?

— Chegar em cidade nova nunca é fácil. — Jadson encostou as costas na cadeira de plástico. — A gente sai de casa achando que vai conquistar o mundo, e no fim do dia só quer um lugar pra cair morto.

Fernando sorriu. Um sorriso fraco, mas genuíno.

— É... Às vezes o mundo bate forte. O negócio é aguentar a pancada e levantar no dia seguinte. Você veio trabalhar com obra?

— Construção civil. Levantar prédio pra gente rica morar.

— Trabalho honesto — Fernando assentiu, com respeito. — Eu sou do escritório, mas hoje... hoje eu queria ter levantado parede em vez de ter ouvido o que eu ouvi.

Mariana, que ouvia a conversa, revirou os olhos com tanta força que parecia a menina de 'O Exorcista'. Ela se inclinou para perto de Patrick.

— Olha lá — sussurrou ela, venenosa. — O cara é liso. Já viu que o Nando tá vulnerável e tá puxando saco. "Ai, sou trabalhador, sou sofrido". Papinho de estelionatário.

— Que isso, Mari. O cara é gente boa — defendeu Patrick, tremendo de medo de Jadson soltar a verdade. — Ele é... humble. Humilde. É o novo perfil de sucesso.

Nesse momento, Ana Lúcia chegou triunfante com um prato de vidro marrom. Em cima dele, repousava uma verdadeira obra de arquitetura calórica: um X-Tudo com ovo, bacon, presunto, queijo, milho, batata palha e uma maionese caseira verde que era o segredo de estado da família Abreu.

— Come, meu filho — disse Ana Lúcia, colocando o prato na frente de Jadson. — Se não gostar, não paga.

Os olhos de Jadson brilharam. Ele pegou o sanduíche com as duas mãos, ignorando os guardanapos, e deu uma mordida generosa. Maionese escorreu pelo canto da boca. Ele mastigou, fechou os olhos e soltou um gemido de aprovação que fez Ana Lúcia sorrir orgulhosa.

— Dona... — Jadson falou de boca cheia, limpando o canto dos lábios com o polegar. — Isso aqui não é lanche não. Isso aqui é um abraço. A senhora tem mãos de fada.

— Gostei dele — decretou Ana Lúcia, virando-se para Mariana. — Viu, Mariana? Aprende. Homem gosta de comida de verdade, não daquelas gororobas fit que você inventa.

Mariana bufou.

— Mãe, pelo amor de Deus. O cara tá comprando a senhora com elogio barato pra ganhar desconto!

Jadson, ouvindo aquilo, parou de mastigar. Ele engoliu, limpou as mãos e enfiou a mão no bolso, tirando a carteira surrada. Ele pescou uma nota de vinte e uma de dez (o troco do táxi que Patrick tinha feito ele pagar).

— Quanto é, dona? — perguntou ele, sério, olhando para Mariana. — Eu pago. Não preciso de desconto e nem de favor de ninguém.

Patrick entrou em pânico. Se Jadson pagasse, ia ficar feio para ele, o "anfitrião rico".

— Que isso! — Patrick pulou, colocando a mão sobre a nota de Jadson. — Guarda isso, Jadson! Aqui seu dinheiro não tem valor! Quer dizer... aqui você é convidado! Pai, bota na minha conta! Eu acerto tudo no fim do mês com os dividendos!

Jerônimo, que estava lavando copos, acenou.

— Deixa disso, rapaz. O Patrick paga. Termina de comer em paz.

Jadson hesitou, olhando de Patrick para Mariana. O olhar de desafio dela era evidente. Aceita a esmola, vagabundo, diziam os olhos dela.

Por orgulho, Jadson queria jogar o dinheiro na mesa. Mas a fome e a necessidade de economizar falaram mais alto. Ele guardou o dinheiro, mas manteve o olhar fixo em Mariana enquanto dava outra mordida no sanduíche.

— Obrigado, Patrick — disse Jadson, sem desviar os olhos dela. — Mas da próxima vez, eu faço questão de pagar. Não gosto de dever nada a ninguém. Principalmente pra gente que julga o livro pela capa.

Mariana sentiu um arrepio estranho na espinha. Raiva? Indignação? Ou aquele friozinho na barriga de quando a gente encontra um adversário à altura?

— Veremos — ela sussurrou, tomando um gole de sua cerveja.

Jadson terminou o lanche em tempo recorde, agradeceu a Ana Lúcia e a Fernando com um aperto de mão firme, e saiu noite afora, rumo à pensão da Dona Mirtes.

Assim que ele saiu, Patrick desabou na cadeira, soltando o ar que prendia há dez minutos.

— Gente finíssima — disse Patrick, com a voz falha. — Um líder nato.

— Um sonso, isso sim — retrucou Mariana. — Abre o olho, Patrick. Esse aí vai levar até suas calças.

Fernando, que estava quieto, apenas comentou:

— Eu achei ele um cara legal. Parece que carrega um peso também.

Mariana olhou para os três homens da família (Jerônimo, Fernando e Patrick) e para a mãe, que já estava lavando a louça cantarolando.

— Vocês são muito ingênuos — declarou Mariana, levantando-se e jogando o cabelo. — Mas sorte de vocês que eu sou a ovelha esperta dessa família. Eu vou ficar de olho nesse Jadson. Muito de olho.

Ela subiu as escadas, sem perceber que "ficar de olho" nele seria exatamente o problema — e a solução — de sua vida. 

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