quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 16

 


A mesa de plástico vermelha já acumulava seis garrafas vazias de cerveja. Dessas seis, Jadson bebera duas, com calma e moderação. Mariana, em sua ânsia investigativa de "Mata Hari do Bairro Esperança", bebera as outras quatro.

O plano era perfeito na teoria: embebedar o alvo, deixá-lo vulnerável e extrair a confissão do golpe. Na prática, porém, Mariana esqueceu um detalhe biológico fundamental: tentar acompanhar o fígado de um pedreiro acostumado a beber "litrão" depois de bater laje era suicídio etílico para uma garota acostumada com Gin Tônica e Aperol Spritz.

— ...e então, Jadson... — Mariana gesticulou, quase derrubando o porta guardanapos. A voz dela estava um tom acima do necessário e as sílabas começando a se arrastar. — Você diz que "construir" é sua paixão. Mas construir o quê? Castelos de areia? Pirâmides... financeiras?

Jadson sorriu, girando o copo na mesa. Ele percebeu que a "princesa" estava ficando altinha, mas achou a situação curiosamente cativante. As bochechas dela estavam coradas, e o olhar afiado de antes agora parecia brilhante e meio perdido.

— Não, Mariana. — Jadson inclinou-se para frente, os olhos brilhando com uma paixão genuína. — Eu falo de casa. De lar. Sabe quando você passa na frente de um prédio e pensa "alguém desenhou isso, alguém suou pra levantar isso"? É isso que eu quero. Meu sonho não é carregar saco de cimento pra sempre. Eu quero fazer Engenharia Civil. Quero ter minha própria empreiteira. "Construtora Meira". Soa bem, não soa?

Mariana piscou, tentando focar no rosto dele. O rosto dele, aliás, estava perigosamente bonito naquela luz amarelada do bar.

— Construtora Meira... — ela repetiu, provando o nome. — É... soa chique. Mas engenharia é difícil. Tem muito cálculo. Muita física. Você acha que dá conta?

— Eu já faço o cálculo na cabeça, Mariana. — Ele bateu na têmpora com o indicador. — Eu olho pro terreno e sei quanto de ferro vai, quanto de concreto. A teoria eu aprendo no livro, mas a prática... a prática eu já tenho no sangue. Eu quero construir coisas que durem. Que não caiam na primeira tempestade.

Mariana apoiou o queixo nas mãos, hipnotizada. Ela esperava ouvir planos de "ficar rico rápido", "investir em criptomoeda fantasma" ou "dar o golpe no baú". Em vez disso, estava ouvindo um homem falar sobre concreto armado com a mesma devoção que um poeta fala sobre o amor.

— Você fala bonito, ogro — ela deixou escapar, num sussurro sincero demais.

Jadson riu, um som grave que vibrou no peito dele e, estranhamente, reverberou no estômago de Mariana.

— Obrigado, eu acho. Mas e o Patrick? — Jadson mudou o assunto, lembrando-se do "sócio" sofredor. — Você pega muito no pé dele, mas ele tá se esforçando, viu? Hoje mesmo... olha, eu nunca vi alguém carregar tanto peso na consciência e nas costas ao mesmo tempo.

A antena de Mariana, mesmo bêbada, captou o sinal.

— Peso? — Ela semicerrou os olhos. — Que peso? O Patrick não aguenta levantar nem um halter de dois quilos. Ele é fraco.

— Ah, não subestime seu irmão. — Jadson quase mordeu a língua. Ele ia dizer "Ele carregou mil tijolos hoje". Disfarçou rápido: — O peso da responsabilidade corporativa é... denso. Ele saiu de lá hoje moído. Parecia que tinha sido atropelado por um trator.

— Ele disse que foi Crossfit — Mariana murmurou, confusa.

— É... tipo isso. Crossfit de... gestão. Levantar métricas, puxar resultados... — Jadson tomou um gole longo de cerveja para esconder o riso. — O que eu quero dizer é: ele gosta da família. Tudo o que ele faz, certo ou errado, doido ou sensato, é pra tentar impressionar vocês. Principalmente o Seu Jerônimo.

Mariana sentiu um aperto no peito. Ela olhou para o balcão, onde o pai já estava empilhando as cadeiras, sinalizando o fim do expediente.

— É... o velho é exigente — concordou Mariana. Ela tentou se levantar para ir ao banheiro, mas o chão do Bar do Abreu decidiu fazer um movimento brusco para a esquerda.

— Opa!

Mariana cambaleou, o salto alto traindo seu equilíbrio comprometido. Ela fechou os olhos, esperando o impacto frio do piso, mas o que sentiu foi calor e firmeza.

Duas mãos fortes a seguraram pela cintura e pelo braço, impedindo a queda.

Ela abriu os olhos. O rosto de Jadson estava a centímetros do dela. Ela podia sentir o cheiro dele: sabonete barato, desodorante amadeirado e um leve toque de cimento, mas que nela parecia perfume importado.

O mundo parou de girar por um segundo. A respiração dela engatou.

— Cuidado aí, princesa — disse Jadson, baixo. Ele não a soltou imediatamente. O aperto dele era seguro, protetor. Não havia malícia, não havia a "mão boba" que ela estava acostumada a repelir nas baladas. Havia apenas... cavalheirismo.

— Eu... eu tô bem — gaguejou Mariana, mas suas pernas pareciam gelatina. — Foi o salto. Esse piso é irregular. O engenheiro que fez isso devia ser demitido.

Jadson sorriu de canto.

— Pode deixar. Quando eu me formar, eu venho aqui e nivelo o piso pro seu pai. Por conta da casa.

Ele a ajudou a se firmar, mas manteve uma mão nas costas dela, guiando-a gentilmente.

— Acho que a saideira já foi, né? Vem, eu te ajudo a subir a escada.

— Eu sei subir escada! — Mariana protestou, tentando recuperar a dignidade de investigadora, mas aceitando o apoio.

Eles caminharam até o acesso da casa. Jerônimo e Ana Lúcia, que fingiam limpar o balcão freneticamente, trocaram olhares e sorrisos cúmplices dignos de adolescentes.

— Boa noite, Seu Jerônimo! Boa noite, Dona Ana! — Jadson gritou da porta. — Tô entregando a moça sã e salva. Quase salva.

— Boa noite, meu filho! Vai com Deus! — respondeu Ana Lúcia, radiante.

Na porta da escada, Jadson parou.

— Consegue subir daqui?

Mariana se apoiou no corrimão, olhando para ele de cima do primeiro degrau. Agora eles estavam na mesma altura. A luz da rua iluminava metade do rosto dele, deixando a outra na sombra. Misterioso. Irritante. Atraente.

— Consigo — disse ela. A névoa do álcool estava passando, dando lugar a uma confusão emocional terrível. — Jadson?

— Oi?

— Você... você é real? Ou é tudo papinho de vendedor?

Jadson colocou as mãos nos bolsos da calça jeans. Ele a encarou com seriedade.

— Eu sou o que você vê, Mariana. Sem reboco, sem pintura. O que tem por dentro é o que tá por fora. Boa noite.

Ele se virou e saiu caminhando pela calçada, as botas fazendo um som pesado e constante.

Mariana ficou ali, parada no degrau, segurando o corrimão.

— Droga — sussurrou ela para a escada vazia. — Ele é real.

Ela subiu os degraus tropeçando, com uma certeza incômoda crescendo no peito: sua investigação tinha falhado miseravelmente. Ela não tinha descoberto nenhum crime do Jadson. A única coisa que ela tinha descoberto era que, talvez, apenas talvez, o "ogro" fosse o príncipe que ela jurava não estar procurando.

E agora? Como ela ia continuar odiando o homem que queria nivelar o chão para ela não cair?

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