terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 14

 


O sol das treze horas em Vitória não perdoava. Ele batia na laje crua e subia num vapor que fazia o ar tremer. No canteiro de obras do "Edifício Solar das Acácias" (um prédio de três andares espremido entre duas casas), a sinfonia de betoneiras e marteladas já tinha começado.

Jadson estava misturando cimento numa masseira com a destreza de quem faz um bolo, quando viu a figura se aproximar pelo portão de tapumes. Ele parou a enxada no ar, sem acreditar no que via.

Patrick chegou para o seu primeiro dia de servente.

Ele vestia uma calça de tactel neon (provavelmente de alguma coleção de 2015), uma camiseta branca que ele tinha virado do avesso para não estragar a estampa da marca falsa, e na cabeça, um boné com a aba virada para trás. Mas o detalhe que quase fez Jadson engasgar com a própria saliva estava nos pés: Patrick tinha envolvido seus tênis "importados" em sacolas plásticas de supermercado, amarradas nos tornozelos com fita crepe.

— E aí, meu gestor! — Patrick saudou, tentando parecer animado, mas com os olhos apavorados diante da montanha de areia. — Prontos para startar a operação?

Jadson apoiou o queixo no cabo da enxada, segurando o riso.

— Patrick... O que é isso no seu pé?

— Proteção de EPI, Jadson. — Patrick apontou para as sacolas do "Supermercado Carone". — Esses sneakers são edição limitada. Não posso deixar o ambiente insalubre depreciar meu patrimônio.

— Sei. — Jadson balançou a cabeça. — Só cuidado pra não escorregar e cair de boca na massa. O Bigode tá vindo aí.

"Bigode" era o mestre de obras. Um senhor atarracado, com braços que pareciam troncos de aroeira e um bigode que desafiava a gravidade. Ele parou na frente de Patrick, olhou para as sacolas nos pés, olhou para a cara de "playboy falido" e cuspiu no chão.

— É esse aí o ajudante que tu arrumou, Jadson? — Bigode perguntou, com a voz rouca de cigarro.

— É ele mesmo, Seu Bigode. O rapaz é... esforçado. Tá precisando muito.

Bigode semicerrou os olhos para Patrick.

— Tu já pegou numa pá na vida, moleque?

Patrick estufou o peito.

— Senhor, minha experiência prévia é mais focada em hard skills de gestão, mas tenho total adaptabilidade para tarefas operacionais de alta intensidade. Sou fast learner.

Bigode olhou para Jadson.

— Ele é gringo?

— Não, senhor. É... meio lelé da cuca mesmo. Mas tem força — mentiu Jadson.

— Tá. — Bigode apontou para uma pilha de tijolos que parecia a Muralha da China. — Pega o carrinho de mão. Leva tudo aquilo pro segundo andar. Na rampa. Se quebrar um tijolo, desconto do teu dia.

Assim que Bigode virou as costas, Patrick murchou.

— Segundo andar? De rampa? Não tem elevador de serviço?

— Pega o carrinho, Patrick — Jadson apontou a ferramenta para ele. — E bem-vindo ao mundo real.



As duas horas seguintes foram um calvário bíblico para Patrick Abreu.

A cada viagem com o carrinho de mão, ele sentia um grupo muscular diferente gritar por socorro. Suas mãos, acostumadas a segurar copos de gin tônica e celulares, começaram a arder com o cabo de madeira áspera. O suor escorria por lugares que ele nem sabia que tinha glândulas.

Jadson, por outro lado, trabalhava num ritmo constante, quase meditativo. Ele via o sofrimento do "sócio", mas não podia fazer o trabalho por ele.

No meio da tarde, Patrick parou, ofegante, apoiado numa coluna de concreto. Ele observou a fila de pedreiros passando baldes de massa de mão em mão.

— Jadson — chamou Patrick, respirando como um cachorro asmático. — Essa logística tá ineficiente.

— Patrick, cala a boca e bebe água.

— Não, sério! — Patrick largou o carrinho e caminhou até o meio da fila, onde Bigode estava conferindo o prumo de uma parede. — Com licença, gestor Bigode! Tive um insight!

Bigode virou-se lentamente, com a colher de pedreiro na mão.

— Que foi, sacola no pé?

— Se a gente implementar um sistema de Lean Manufacturing aqui, a gente otimiza o fluxo da massa! — Patrick gesticulava freneticamente. — Em vez de passar o balde linearmente, a gente podia criar células de produção autônomas! Reduz o gargalo e aumenta o output! O senhor tá perdendo time-to-market com essa parede!

O silêncio caiu sobre a obra. Os pedreiros pararam. O som da betoneira parecia ter diminuído só para ouvir a resposta.

Bigode desceu da escada, degrau por degrau. Ele chegou bem perto do rosto suado de Patrick.

— "Time to market"? — Bigode repetiu, baixo e perigoso, saindo algo como "Tháime thu márquetí". — Moleque, se tu não pegar aquele carrinho e encher de areia agora, eu vou te dar um tháime thu hospital. Tu tá aqui pra carregar peso, não pra dar palpite na minha obra. Entendeu ou quer que eu desenhe no cimento?

Patrick engoliu em seco, o sorriso corporativo tremendo.

— Entendido. Feedback recebido. Voltando à base operacional.

Ele correu para o carrinho de mão. Jadson, que assistia a tudo de longe, balançou a cabeça, rindo.

— Eu avisei...

Às dezessete horas, o apito final soou (na verdade, foi o Bigode gritando "Acabou, cambada!").

Patrick estava sentado num monte de areia, os braços pendurados como se fossem feitos de gelatina. Ele não sentia as pernas. As sacolas nos pés estavam rasgadas, revelando os tênis agora cinzentos de pó.

Jadson se aproximou, enxugando o rosto com a camisa. Ele estendeu uma nota azul de cem reais para Patrick.

— Tá aqui. Seu Bigode mandou entregar. Disse que você fala muito, mas até que carregou tijolo direito pra um "frango de granja".

Patrick olhou para a nota de cem reais como se fosse um diploma de Harvard. Ele tentou pegar, mas seus dedos estavam travados em forma de garra por causa da pá.

— Cem reais... — Patrick sussurrou, a voz rouca. — Jadson... isso é dinheiro suado. Literalmente.

— É sim. Agora levanta. Você não pode ir pra casa desse jeito. Se a Dona Ana te ver parecendo um croquete empanado, a farsa acaba.

— Verdade! — Patrick deu um pulo (que foi mais um gemido de dor). — Eu preciso de um banho! Um spa!

Spa só se for de mangueira — Jadson riu, indo até a torneira do pátio. — Vem cá. Tira a camisa e o tênis. Vou te dar um banho de gato pra tirar o grosso.

Patrick obedeceu, humilhado, deixando a água gelada da mangueira lavar o cimento e a dignidade.

— Jadson... — disse Patrick, enquanto tirava a areia da orelha. — Valeu. De verdade. Você salvou minha pele hoje.

Jadson fechou a torneira e olhou para o companheiro. Por trás de toda aquela pose ridícula e das mentiras, Patrick estava ali, se humilhando e sofrendo para não decepcionar o pai (ou para não apanhar do agiota, mas dava no mesmo).

— Tranquilo, Patrick. Mas amanhã tem mais. E vê se traz uma bota velha, pelo amor de Deus.

Patrick assentiu, vestindo a camisa do avesso novamente, agora molhada.

— Amanhã eu trago. Agora, se me der licença... preciso ir pra casa fingir que passei o dia em reuniões de ar-condicionado enquanto meu corpo todo grita.

Patrick saiu mancando pelo portão, segurando a nota de cem reais contra o peito. Jadson ficou olhando, balançando a cabeça.

— Família Abreu... — murmurou Jadson, sorrindo. — Cada um com sua doidice.

Ele pegou sua mochila e seguiu para a pensão.

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