sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 11

 


A terça-feira amanheceu com aquele brilho úmido típico de Vitória, prometendo um calor de rachar coco antes do meio-dia. Na cozinha da família Abreu, a mesa estava cheia como não se via há anos.

Era uma logística complicada. Fernando ocupava seu lugar habitual, agora com Murilo sentado num banquinho alto ao seu lado (com os pés balançando no ar). Jerônimo na ponta, Ana Lúcia em pé servindo, Vinícius devorando um pão com queijo, e Patrick... Patrick estava sentado como se presidisse uma reunião de conselho, com a postura ereta e um guardanapo de papel no colo.

— Então, família... — começou Patrick, servindo-se de café com movimentos calculados. — Já que estou de volta para injetar capital e sabedoria na base, preciso de um status report. Como andam os empreendimentos pessoais de vocês?

Fernando, que mastigava sem muita vontade, ergueu os olhos por cima dos óculos.

— Empreendimentos? Eu sou contador, Patrick. Trabalho na "Logística Capixaba".

— Certo, certo. Setor financeiro, backoffice — Patrick assentiu, fazendo anotações mentais imaginárias. — E o growth? Tem perspectiva de virar sócio? CEO?

— Sócio? — Fernando riu, um riso cansado. — Eu sou analista júnior, Patrick. Mas... o supervisor disse que se eu entregar o balanço trimestral sem erros, posso subir para Pleno. Seria uns seiscentos reais a mais no salário.

Patrick fez uma careta, como se seiscentos reais fossem troco de pinga.

Mindset de escassez, Nando. A gente precisa trabalhar esse seu branding pessoal. Se posicione como indispensável. Peça equity. Ações da empresa.

— Eles vendem frete de caminhão, Patrick. Não tem ações na bolsa.

— Detalhes — Patrick abanou a mão e virou-se para Vinícius. — E você, caçula? Qual a sua expertise atual?

Vinícius, com a boca cheia, apontou para si mesmo.

— Eu? Ah, eu tô no terceiro ano. E ajudo o pai no bar à tarde. Reponha estoque, sirvo mesa quando o movimento aperta...

— Operações e Logística de Varejo — Patrick traduziu. — Interessante. Mas você não pode ficar só no operacional. Tem que pensar na experiência do usuário. O cliente do bar não quer só cerveja, ele quer uma vivência.

Jerônimo, que ouvia tudo calado, resmungou:

— O cliente quer cerveja gelada e torresmo crocante. Se vier com "vivência", ele vai pro boteco da esquina que é mais barato.

Patrick ignorou o pai e finalmente voltou seus olhos para Mariana. Ela estava passando requeijão numa torrada com uma lentidão provocativa, sabendo que a sua vez chegaria.

— E você, maninha? — Patrick sorriu. — Além de gastar a bateria do celular no Instagram, qual é o seu business? Faculdade? Estágio? Empreendedorismo digital?

Mariana mordeu a torrada, mastigou com calma e limpou o canto da boca.

— Meu business é viver, Patrick. — Ela sorriu, desafiadora. — Eu tô tirando um tempo pra mim. Me encontrando. A vida é curta demais pra ficar trancada num escritório igual ao Fernando ou carregando engradado igual ao Vinícius. Eu tô focada no meu network social.

A colher de pau de Ana Lúcia bateu com força na borda da pia, soando como um gongo de boxe.

— "Se encontrando"... — repetiu a mãe, a voz tremendo de indignação contida. — Você tem vinte e dois anos, Mariana! A única coisa que você encontra é festa open bar e ressaca.

— Mãe, não começa... — Mariana revirou os olhos.

— Começo sim! — Ana Lúcia se virou, gesticulando com a espátula suja de manteiga. — Seu irmão se matando de trabalhar, o Patrick voltando do Rio cheio de negócios importantes... e você aí? "Curtindo a vida"? Quem banca essa curtida é o seu pai, que passa o dia em pé com a perna ruim!

— Eu ajudo em casa! — Mariana retrucou, o rosto ficando vermelho. — Eu lavo, eu passo, eu arrumo a bagunça do Vinícius! Isso não é trabalho?

— É obrigação de quem come e dorme de graça! — Ana Lúcia rebateu. — Eu quero ver carteira assinada, Mariana. Quero ver diploma. "Network" não paga aposentadoria!

O clima na mesa azedou instantaneamente. Fernando abaixou a cabeça, Vinícius parou de mastigar. A tensão entre mãe e filha era antiga, um cabo de guerra que sempre estourava nos cafés da manhã.

— Vovô... — Uma vozinha fina cortou o silêncio pesado.

Todos olharam para baixo. Murilo, alheio à discussão socioeconômica, estendia o pratinho do Homem-Aranha na direção de Jerônimo.

— Posso pegar mais um pedaço desse pão de batata? Tá muito bom.

A raiva de Ana Lúcia travou no ar. O rosto de Mariana suavizou.

Jerônimo, rápido como um goleiro, pegou a travessa de pães e colocou um pedaço generoso no prato do neto. Enquanto fazia isso, lançou um olhar severo por cima da cabeça do menino, fuzilando Ana Lúcia e Mariana. Nem mais um pio, diziam os olhos dele. Não na frente da criança.

— Claro, meu filho — disse Jerônimo, a voz mansa. — Come tudo pra ficar forte.

Ana Lúcia suspirou, engolindo as palavras, e voltou para a pia. Mariana bufou e se concentrou em seu café.

Foi nesse momento de silêncio constrangedor, preenchido apenas pela mastigação feliz de Murilo, que o celular de Patrick vibrou sobre a mesa. Uma vibração longa e agressiva.

A tela acendeu. Uma notificação de WhatsApp flutuou ali, visível para quem estivesse perto.

Número Desconhecido (DDD 21): “Irmão, o prazo acabou. O Breno disse que se não cair os 5k hoje até o meio-dia, ele vai ligar pro fixo da tua casa. Tu sabe que ele não brinca.”

O sangue de Patrick gelou. O coração dele deu uma batida falhada. Ele viu que Vinícius estava esticando o pescoço para ler a mensagem.

Rápido como um raio, Patrick virou o celular para baixo, soltando uma risada nervosa que saiu um pouco aguda demais.

— Hahaha! Esses fusos horários... — disse Patrick, limpando o suor que brotou instantaneamente na testa. — É o mercado asiático abrindo. Japão. A bolsa de Tóquio tá agitada hoje. Volatilidade, sabem como é.

— Tóquio? — Vinícius franziu a testa. — Mas o DDD era 21. Tóquio fica no Rio de Janeiro agora?

Patrick engasgou com o café.

— É... É uma VPN, Vinícius! Um túnel criptografado de dados! Coisa de segurança cibernética, você não entenderia. — Patrick levantou-se abruptamente, segurando o celular como se fosse uma granada sem pino. — Com licença, família. Preciso fazer uma call urgente. Crise no oriente.

Ele saiu da cozinha quase correndo, deixando para trás uma família confusa, um Murilo feliz com seu pão de batata e uma dívida que estava prestes a explodir.

— Estranho... — comentou Fernando, ajeitando os óculos. — Nunca vi corretor suar tanto por causa do Japão.

CONTINUA...

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