quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O Amor Chegou Depois - Parte 20

 


O movimento no Bar do Abreu estava naquele ponto morto típico do meio da tarde. O sol baixava, as moscas zumbiam mais devagar e apenas duas ou três mesas estavam ocupadas por clientes solitários que afogavam as mágoas em silêncio.

Jerônimo aproveitava a calmaria para reorganizar as garrafas de cachaça na prateleira mais alta, cantarolando um samba antigo, feliz da vida. Ana Lúcia, no entanto, secava copos no balcão com uma energia um pouco agressiva demais, ainda remoendo a conversa que tivera com a filha na cozinha.

Foi quando a figura esguia e sempre bem passada de Eustáquio Ramos surgiu na porta. Ele entrou com a familiaridade de quem frequenta o lugar há décadas, acenando com a cabeça para os conhecidos, mas mantendo aquela postura rígida de quem está sempre julgando o ambiente.

— Boa tarde, família Abreu — saudou Eustáquio, encostando a barriga no balcão.

— Grande Eustáquio! — Jerônimo desceu do banquinho, sorridente. — Sumido, hein, amigo? Vai querer o de sempre? Uma dose da "amansa-sogra"?

— Hoje não, Jerônimo. Me vê só uma água com gás e um café. O estômago tá meio embrulhado. Deve ser desgosto.

Ana Lúcia, que estava de costas, revirou os olhos, mas virou-se com um sorriso profissional no rosto.

— Desgosto de quê, Eustáquio? O Vasco perdeu de novo?

— Antes fosse futebol, Ana — Eustáquio suspirou, pegando um guardanapo e dobrando-o milimetricamente. — É preocupação de pai. Vocês sabem como é. Criar filho hoje em dia é uma guerra.

Jerônimo serviu a água e o café.

— Nem me fale. O meu Patrick voltou do Rio, tá aí cheio de planos, mas a gente fica com o coração na mão, né? Mas é um bom menino.

— Pois é — Eustáquio bebericou o café. — O problema, Jerônimo, é a companhia. Às vezes a gente cria o filho direito, ensina o caminho da igreja e do trabalho, mas aí aparecem as... influências.

Nesse momento, um cliente na mesa do fundo levantou a mão, pedindo a conta.

— Já vai! — gritou Jerônimo. — Com licença, Eustáquio, deixa eu atender o Seu Mário ali que ele tá com pressa. Ana, dá atenção pro nosso amigo aí.

Jerônimo saiu de perto, mancando apressado, deixando Ana Lúcia e Eustáquio sozinhos no "ringue" do balcão.

O silêncio durou três segundos. Eustáquio olhou para Ana Lúcia por cima da xícara.

— Vi meu Jonas saindo com a sua Mariana agora há pouco — comentou ele, o tom casual demais para ser inocente. — Saíram cantando pneu naquele carro velho dele.

Ana Lúcia endireitou a postura, segurando o pano de prato com força.

— Eles são amigos desde criança, Eustáquio. Você sabe disso. Foram brincar de detetive ou sei lá o que esses jovens inventam.

— Amigos... — Eustáquio fez um som de desprezo com a boca. — Eu sei, Ana. Mas o Jonas é um rapaz sério. E a Mariana... bem, a Mariana tem uma fama meio... "alegre" demais pro meu gosto.

O sangue de Ana Lúcia ferveu. Uma coisa era ela, a mãe, chamar a atenção da filha na cozinha de casa. Outra coisa, completamente diferente, era aquele viúvo ranzinza insinuar coisas sobre a sua menina no balcão do bar.

— A minha filha é alegre sim, graças a Deus — Ana Lúcia respondeu, a voz gelada e cortante. — Ela é jovem, bonita e cheia de vida. Não vejo problema nenhum nisso. Ou você preferia que ela fosse amargurada e ficasse trancada em casa cuidando da vida dos outros?

Eustáquio não se abalou. Ele pousou a xícara no pires com um clink suave.

— Eu só acho que mulher direita tem hora pra chegar em casa e modos pra se comportar. A vizinhança comenta, Ana. Dizem que ela é... como é que falam? "Rodada". Eu só não quero que essa fama respingue no meu Jonas.

A mão de Ana Lúcia tremeu. A vontade dela era pegar a água com gás e jogar na cara engomada dele.

— Olha aqui, Eustáquio... — ela começou, inclinando-se sobre o balcão, o dedo em riste. — A língua do povo não tem osso, mas a minha paciência tem limite. A Mariana é uma moça de família. Ela tem pai, tem mãe e tem irmãos que matam e morrem por ela. Se o seu Jonas anda com ela, é porque ele sabe que ela vale ouro. Se você tem medo de "fama", devia prender seu filho numa redoma de vidro, não vir aqui ofender minha filha.

Eustáquio sorriu, um sorriso fino e condescendente, como se estivesse lidando com uma criança birrenta. Ele tirou uma nota de dez reais da carteira e colocou sobre o balcão.

— Não precisa se alterar, vizinha. Eu só estou dando um toque de amigo. Cobra o café e a água.

Ana Lúcia pegou a nota. Ela abriu a caixa registradora com violência. Pegou o troco em moedas. Sua mão fechou-se em torno do metal frio. A tentação de arremessar as moedas na testa dele foi avassaladora. Ela visualizou a cena: as moedas batendo, ele caindo, a justiça sendo feita.

— Tudo certo por aqui? — A voz bonachona de Jerônimo quebrou o transe.

O patriarca voltou, secando as mãos, alheio à nuvem de ódio que pairava sobre a esposa.

Ana Lúcia respirou fundo, engoliu o veneno e depositou as moedas na mão de Eustáquio com uma delicadeza forçada, quase dolorosa.

— O troco, vizinho. Volte sempre.

— Obrigado, Ana — disse Eustáquio, guardando o dinheiro com calma. Ele se virou para Jerônimo. — Eu estava dizendo pra sua esposa, Jerônimo... Meu Jonas é um orgulho. Menino trabalhador, honesto. Vai abrir a própria barbearia mês que vem. "Ramos Barber Shop". Já está com o ponto alugado e tudo.

— Olha só! — Jerônimo bateu no ombro do amigo. — Que beleza! O Jonas merece. Sempre foi focado.

— Pois é — Eustáquio ajeitou a gola da camisa, lançando um último olhar lateral para Ana Lúcia. — Focado. Ele não tem tempo pra ficar farreando por aí com gente errada. Ele sabe o que quer da vida. Diferente de muita gente da idade dele que só quer saber de festa e de dar desgosto pros pais.

Jerônimo assentiu vigorosamente, concordando com a generalização.

— É verdade, é verdade. Essa juventude tá perdida mesmo. Sorte a nossa que criamos os nossos bem, né Eustáquio?

Ana Lúcia sentiu uma veia pulsar na têmpora. O marido estava concordando com o insulto sem nem perceber!

— Bom, vou indo. — Eustáquio deu dois tapinhas no balcão. — Um abraço, Jerônimo. Passar bem, Ana.

Ele saiu do bar, caminhando com a satisfação de quem marcou território.

Assim que ele dobrou a esquina, Ana Lúcia pegou o pano de prato e o arremessou com toda a força no chão.

— Mas que homem detestável! — gritou ela.

Jerônimo parou, assustado, com uma garrafa de cerveja na mão.

— Ué, Ana? O que foi? O Eustáquio é gente boa, freguês antigo...

— "Gente boa" é o caramba, Jerônimo! Você é muito sonso mesmo! Ele estava falando mal da sua filha na sua cara e você aí, batendo palma!

— Falando mal da Mariana? — Jerônimo franziu a testa, confuso. — Ele só falou da barbearia do Jonas...

— Ah, Jerônimo, vai lavar um copo! — Ana Lúcia bufou, pegando o pano do chão e voltando para a cozinha pisando duro. — Se aquele velho aparecer aqui de novo com esse papinho, eu sirvo o café dele com água de salsicha!

Jerônimo ficou sozinho no salão, coçando a cabeça, tentando entender o que tinha perdido, enquanto lá fora, o "focado" Jonas estava prestes a se meter na maior confusão da sua vida ao lado da "má influência" Mariana.

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