— Gordura velha? — Ana Lúcia repetiu, dando um passo à frente, o pano de prato apertado nas mãos como se fosse um porrete. — Engraçado você dizer isso, Cíntia. Porque foi o dinheiro dessa "gordura velha" que pagou aquele buffet chique no seu casamento que você tanto exigiu. Na época o cheiro de coxinha não te incomodava, né?
Cíntia estalou a língua, impaciente, ignorando a sogra e voltando-se para o marido.
— Fernando, eu não vim aqui para discutir gastronomia com sua mãe. Eu vim resolver a nossa vida. Ou o que sobrou dela.
Fernando indicou uma cadeira de plástico com um gesto cansado.
— Senta, Cíntia. Por favor.
— Eu fico em pé — ela retrucou, cruzando os braços. — Vamos ao que interessa. Eu quero o divórcio no papel o mais rápido possível. Eu fico na casa, porque não vou mudar minha rotina e nem a do Murilo... quer dizer, quando o Murilo estiver comigo. O aluguel continua no nome do seu pai, claro, até porque eu não tenho renda comprovada para assumir o contrato agora.
— Ah, que conveniente — Mariana soltou uma risadinha venenosa do canto escuro onde estava. — Quer a casa, o fiador e a liberdade. Quer que a gente mande entregar o café da manhã na cama também?
Cíntia fuzilou Mariana com o olhar.
— Cala a boca, garota! Ninguém te chamou na conversa. — Ela voltou para Fernando. — Continuando: você sai, eu fico. A pensão alimentícia do Murilo tem que ser de trinta por cento do seu salário bruto. E, claro, você vai continuar pagando a escola e o plano de saúde, porque isso é obrigação de pai.
Fernando arregalou os olhos por trás das lentes engorduradas.
— Trinta por cento, Cíntia? Mais a escola, o plano e o aluguel da casa? — A voz dele tremeu. — Cíntia, se eu pagar tudo isso, não sobra dinheiro nem pra eu comer. Eu vou viver de quê? De luz?
— Isso não é problema meu, Fernando. Você que é o "homem responsável", não é? Se vira. Faz hora extra. Pede aumento. O padrão de vida do meu filho não vai cair porque você não consegue bancar.
Foi nesse momento que Patrick, que observava tudo com a mão no queixo numa pose de "O Pensador", decidiu intervir. Ele pigarreou alto, ajeitou o colarinho da camisa falsa e deu dois passos à frente, com a autoridade de um CEO de multinacional.
— Um momento, por gentileza — disse Patrick, erguendo a mão. — Com licença, Cíntia, mas acho que você está equivocada nos seus cálculos de valuation familiar.
Cíntia franziu a testa, olhando para o cunhado como se ele fosse um alienígena.
— Do que você tá falando, Patrick?
— Estou falando de compliance doméstico — continuou Patrick, sério, inventando termos à medida que falava. — Veja bem, segundo a jurisprudência do mercado de futuros afetivos, o que você está propondo configura um dumping parental. É insustentável a longo prazo. Você quer imobilizar o capital passivo do Fernando sem oferecer uma contrapartida de liquidez emocional.
O silêncio no bar foi absoluto.
Jerônimo olhou para o filho com orgulho ("Meu menino fala bonito"). Mariana segurou o riso. Fernando parecia confuso. Cíntia parecia ter levado um golpe na cabeça.
— Que diabos é "liquidez emocional"? — Cíntia perguntou, irritada. — Você tá bêbado?
— O que meu irmão quer dizer — Mariana traduziu, aproveitando a deixa —, é que você tá querendo extorquir o Fernando e a gente não vai deixar. Você quer a casa? Pague o aluguel. Quer pensão? O juiz decide, não você.
— Eu não vou esperar juiz nenhum! — Cíntia gritou, perdendo a compostura de madame. — Se vocês dificultarem, eu sumo com o Murilo! Eu levo ele pra casa da minha tia em Minas e vocês nunca mais veem o menino!
Ao ouvir a ameaça, a passividade de Fernando evaporou. Ele bateu a mão na mesa de plástico com um estrondo seco, fazendo todos pularem.
— O Murilo não! — Fernando disse, a voz grave, quase um rosnado que ninguém ali conhecia. Ele se levantou, encarando Cíntia de igual para igual. — Você pode ficar com a casa, Cíntia. Eu pago o aluguel por mais três meses até você se ajeitar. Você pode ficar com os móveis, a TV, tudo. Mas você não usa o meu filho de moeda de troca.
Cíntia recuou um passo, surpresa com a reação.
— O Murilo fica aqui — continuou Fernando, firme. — Pelo menos essa semana. Ele fica aqui com meus pais, onde ele é amado, enquanto a gente resolve essa papelada. Você disse que "não nasceu pra isso"? Que queria viver? Ótimo. Tira a semana de folga. Vá viver sua vida de solteira. Mas o Murilo fica.
Cíntia olhou em volta. Viu a cara fechada de Jerônimo, os braços cruzados de Ana Lúcia, o sorriso debochado de Mariana e a pose de advogado de porta de cadeia do Patrick. Ela estava em desvantagem numérica e moral.
Além disso, a ideia de ficar uma semana sozinha, sem ter que acordar cedo para levar criança na escola ou fazer lancheira, soou tentadora para a "nova fase" que ela queria.
— Tudo bem — ela disse, tentando parecer que estava fazendo um favor e não cedendo. Ela ajeitou a bolsa no ombro. — Fica com ele essa semana. Eu preciso mesmo... reorganizar o ambiente. Tirar suas energias ruins da casa.
Ela se virou para a saída.
— Mas não pensem que acabou. Meu advogado vai entrar em contato. E Patrick... — Ela olhou para o cunhado com desdém. — Melhora esse vocabulário. Ninguém cai nessa sua conversa fiada.
Cíntia saiu, batendo os saltos. A porta de aço foi abaixada por Jerônimo assim que ela passou, como se quisessem vedar o bar contra uma radiação tóxica.
Assim que o som do carro dela se afastou, o clima no bar mudou. Foi como se um balão de ar esvaziasse. Fernando afundou na cadeira, tirando os óculos e esfregando os olhos.
— Dumping parental? — Mariana olhou para Patrick e começou a rir. — De onde você tirou isso, criatura?
— Improviso, maninha. Improviso — Patrick sorriu, aliviado, soltando o ar. — O importante é confundir o inimigo. Se você não pode convencer, confunda.
— Você foi muito bem, meu filho — Jerônimo deu um tapinha nas costas de Fernando. — Falou grosso. É assim que tem que ser.
— É... — Fernando recolocou os óculos, olhando para o teto, na direção de onde Murilo dormia ou jogava. — Mas ela tem razão numa coisa. O dinheiro vai ser um problema. Eu não tenho como manter duas casas.
— A gente dá um jeito — Ana Lúcia disse, firme, indo para a cozinha. — Agora, vamos comer. Saco vazio não para em pé e nem resolve divórcio. Jerônimo, liga a chapa. Vou fazer uns X-Tudos pra gente.
Enquanto a família tentava relaxar, do lado de fora, a noite avançava. E com a noite, vinha a fome de quem não tinha família ali para fazer um lanche.
Alguém bateu na porta de aço recém-fechada. Batidas tímidas, mas insistentes.
— Ué? — Jerônimo franziu a testa. — A Cíntia voltou?
Mariana se levantou.
— Deixa que eu vejo. Se for ela, eu jogo a mostarda na cara.
Mariana caminhou até a porta e a ergueu apenas até a altura dos joelhos, espiando por baixo. Ela viu duas botas de trabalho gastas e a barra de uma calça jeans.
— Quem é? — ela perguntou, sem abrir tudo.
— Boa noite... — A voz grave veio de fora. — É que me indicaram aqui pra jantar. Disseram que era o melhor da região. Ainda tá servindo ou já fechou?
Mariana reconheceu a voz. Ela ergueu a porta com força, revelando o dono das botas.
Jadson estava parado ali, com a cara de quem estava perdido, faminto e com a orelha ainda vermelha.
Mariana sorriu. Não o sorriso de boas-vindas da mãe, nem o sorriso venenoso para Cíntia. Era um sorriso de quem acabara de encontrar um novo alvo para descontar o estresse do dia.
— Olha só quem apareceu... — disse ela. — O guarda-costas do milionário.

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